Colônia, 17 (AE) - O presidente Bill Clinton afirmou hoje (17) que os soldados americanos e as tropas dos outros países da Aliança Atlântica que entraram esta semana em Kosovo não sairão à caça do presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, para entregá-lo à Corte Internacional de Justiça, que acusou o líder sérvio de crimes de guerra, no mês passado.
"Não acredito que os aliados possam invadir Belgrado e fazer valer o indiciamento", afirmou Clinton, durante uma entrevista coletiva com o presidente da França, Jacques Chirac, no final de uma visita de dois dias a Paris. "Se ele permanecer na Sérvia, presume-se que estará fora do alcance dos poderes de extradição de outros governos", disse o líder americano. "Às vezes, essas coisa levam um bom tempo", acrescentou. "Isso não significa que ele não será julgado um dia, mas precisamos agora seguir adiante com as nossas obrigações humanitárias para garantir a volta dos kosovares para casa e continuar a apurar provas de crimes de guerra em Kosovo".
Como foram os EUA e outros países da OTAN que produziram as informações usadas para o indiciamento de Milosevic e, depois, condicionaram a concessão de qualquer assistência para a reconstrução da Iugoslávia a seu afastamento do poder, a declaração de Clinton soou como um convite aos iugoslavos para que se levantem contra seu presidente e apostem numa alternativa democrática, se quiserem contar com algo além de ajuda humanitária de americanos e europeus.
"Assistência humanitária, sim, assistência econômica, não", reforçou Chirac.
Essa mensagem será ampliada a partir de amanhã, aqui, durante a reunião anual dos líderes das sete maiores economias industrializadas e da Rússia. Planejado como uma celebração da vitória contra o despotismo nos Bálcãs e da superação da crise financeira iniciada na ásia dois anos atrás, o encontro dos líderes, às margens do Reno, começará marcado pelas desavenças entre Washington e Moscou sobre o papel das tropas russas no pós-guerra em Kosovo.
Clinton anunciou progressos nas negociações que o secretário da Defesa dos EUA, William Cohen, e seu colega russo, Igor Sergeyev, iniciaram hoje em Helsinque, mas não forneceu detalhes. Paralelamente, a agência de notícias russa Interfax informou que o presidente Bóris Yeltsin instruiu Sergeyev a insistir numa reivindicação considerada inaceitável pela Otan, ou seja, que as tropas russas tenham sua própria zona geográfica de atuação em Kosovo, a exemplo do que acontece com as forças dos EUA, Inglaterra, França, Alemanha e Itália. A desconfiança de Washington é que Yeltsin fez um acordo secreto com Milosevic sobre uma possível partilha de Kosovo, para preservar uma parte da província sob controle sérvio.
A divergência coloca em risco, de mais de uma maneira, a demonstração concórdia que costumam ser as cúpulas do G-8. Além de pôr em evidência a fragilidade do pós-guerra nos Bálcãs, a disputa com Moscou pode comprometer o anúncio de uma iniciativa dos EUA e da Europa para tentar convencer a Duma, o parlamento russo, de que a disposição de cooperação do Ocidente com o país é real. Funcionários americanos esforçaram-se até agora para esconder sua irritação com a entrada de tropas russas em Kosovo antes dos soldados aliados, minimizando a importância do problema criado em torno do aeroporto de Pristina. Mas, se não for resolvida até a abertura oficial da cúpula, amanhã, a insistência do imprevisível Yeltsin na demanda de uma zona russa em Kosovo pode envenenar o clima da reunião.
A divisão do custo da reconstrução de Kosovo é outro ítem importante da agenda do encontro, que reunirá inicialmente apenas os líderes das potências industriais. Tendo contribuído com mais de 80% dos aviões, pilotos e bombas usados na campanha aérea de 78 dias contra a Iugoslávia, Clinton deverá insistir que a Europa pague a maior parte da conta da reconstrução.
Na área econômica, os líderes têm boas notícias. Com números animadores a exibir sobre a retomada das economia de seu país nos últimos meses, o chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, que participa de seu primeiro encontro anual do G-8 como anfitrião, disse na quarta-feira ao Bundestag, o parlamento alemão, que a cúpula de Colônia marcará "o começo do fim de um período difícil de crescimento fraco na Europa e na ásia".
O primeiro-ministro do Japão, Keizo Obuchi, que também é um estreante no G8, desembarcou hoje em Colônia trazendo notícias sobre expansão da economia de seu país no primeiro trimestre deste ano, depois de uma década de estagnação. Seus assessores disseram que ele as usará para responder às pressões dos demais líderes para que Tóquio adote medidas de estímulo econômico, uma demanda repetida em vão todos os anos.
Os líderes do G-8 devem endossar um modesto plano de reforma da arquitetura do sistema financeiro internacional anunciado na semana passada por seus ministros das finanças e dar seguimento ao processo de perdão de parte das dívidas dos países mais pobres a governos e instituições financeiras oficiais, iniciado em 1996.

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