Clinton discute nova economia com especialistas Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 05 (AE) - A nova economia da era da informação - o tema de uma conferência de um dia que o presidente Bill Clinton realizou hoje na Casa Branca - é muito parecida com a velha economia industrial pelo menos num aspecto essencial: não há acordo entre os economistas sobre o que ela é exatamente e, menos ainda, sobre a questão mais premente que ela apresenta, ou seja, quanto tempo mais durará o extraordinário período de expansão que marcou a sua chegada, nos últimos cinco a seis anos
e refletiu-se numa histórica alta das ações de empresas.
Falando menos de 24 horas depois do fechamento de um dos dias mais volátil da história da Bolsa de Valores de Nova York, precipitado pela condenação da Microsoft pela Justiça federal americana por violação das leis antimonopólio, Abby Joseph Cohen
a principal estrategista de investimentos em bolsa do Banco Goldman Sachs, disse que "permanece entusiasmada" com as perspectivas do mercado acionário.
Um dos oráculos de Wall Street, Cohen ajudou a provocar uma queda acentuada do mercado na semana passada aconselhando investidores a reduzir de 70% para 65% a proporção de ações de suas carteiras.
O ex-vice-secretário do Tesouro Roger Altman discordou da estrategista do Goldman Sachs. "Haverá uma correção, talvez uma correção acentuada", advertiu Altman, que trabalha hoje como investidor privado. Ele disse que a nova economia está ainda em sua infância, admitiu que ela pode estar mudando os parâmetros conhecidos da economia e do ciclo de negócios e permitir um crescimento não inflacionário mais acelerado do que os 2,5% tidos até recentemente como o máximo possível. "Mas as oscilações do mercado sinalizam uma correção acentuada das ações de tecnologia."
Altman acrescentou que nem todas as companhias high tech serão atingidas. Segundo ele, firmas como a Microsoft, Cisco e Intel, que têm sólido faturamento e dão lucro "serão menos afetadas".
Clinton voltou a pronunciar-se a favor da diminuição da distância entre os pobres e os ricos, dizendo que é hora de aproveitar o potencial "verdadeiramente explosivo" da Internet para ajudar os que vivem na pobreza.
O presidente do Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), Alan Greenspan, creditou mais vez a expansão recorde do PIB americano "ao extraordinário salto de inovação tecnológica". Mas ele repetiu as advertências que vem fazendo há meses sobre o desequilíbrio que ameaça a continuação da prosperidade e assinalou que a delicada operação que o Fed comanda há meses para induzir uma redução do crescimento da economia a uma taxa mais segura e sustentável é mais complicada do que os participantes do mercado parecem presumir.
A valorização das ações e dos preços das moradias criou "um aumento marcante" no poder de compra dos americanos "sem oferecer a expansão equivalente e imediata na oferta de bens e produtos". Greenspan evitou falar especificamente sobre a volatilidade do mercado, a não ser para deixar claro que uma eventual correção da bolsa não deve ser debitada ao Fed.
Ele indicou que a política monetária não tem como alvo a bolsa ou o efeito riqueza que a valorização das ações produziu e, segundo vários economistas, levou o americano a se endividar além dos limites da prudência. "Há poucos indícios de que uma política monetária calculada para esse objetivo teria êxito", disse Greenspan.
O presidente do Fed sinalizou também seu ceticismo sobre a decisão dos investidores de transferir seu capital maciçamente das empresas da chamada venha economia para as companhias baseadas na Internet e na tecnologia da informação, na expectativa de multiplicar seus ganhos. "Há muitos que argumentam que isso não é presciência, mas fé naquilo que se quer que seja a verdade", disse.
"A valorização excessiva das ações nos faz sentir bem, mas não é uma coisa saudável", disse o economista William Nordhaus, da Universidade de Yale, ecoando a opinião e o temor de muitos dos participantes, que se dividiram em cinco grupos de discussão de temas específicos.
Bill Gates, o presidente da Microsoft e um dos pais da nova economia, participou da discussão de um desses grupos, na parte da tarde. Numa prova de que o sangue-frio continua a ser um requisito para participar do grande jogo político-econômico, Gates, apenas dois dias depois de ter sua empresa condenada na Justiça numa ação iniciada pelo governo Clinton e ter visto evaporar bilhões do valor de suas ações, fez uma apresentação ao grupo que discutiu maneiras de fechar o fosso digital global nas áreas de educação, saúde e de tecnologia.
Fred Bergstein, o diretor do Instituto de Economia Internacional, chamou atenção para o perigo representado por um problema mais tradicional e premente, ou seja, o crescente déficit comercial americano, que atingiu um recorde de US$ 267,6 bilhões no ano passado.
Para ele, a explosão do déficit, combinada com os desequilíbrios internos gerados pelas expectativas da nova economia, poderia desencadear um pânico entre investidores estrangeiros e precipitar uma queda do dólar. "Um forte declínio do dólar puxaria os juros para cima e a bolsa para baixo", disse ele.





