Davos, 29 (AE) - O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, defendeu hoje a inclusão de questões trabalhistas e ambientais nas próximas negociações de comércio. Ele reafirmou, num enfático discurso de 50 minutos no Fórum Econômico Mundial, as posições norte-americanas defendidas em Seattle, há dois meses, durante a fracassada tentativa de lançamento da Rodada do Milênio. A diplomacia brasileira, assim como a da maioria dos países em desenvolvimento, rejeita essa pretensão, qualificando-a de protecionismo disfarçado. Não se trata de protecionismo, disse hoje o presidente norte-americano, mas de exigências benéficas para todos, a longo prazo.
Clinton também exortou o europeus a pôr sobre a mesa o tema dos subsídios à exportação de produtos agrícolas, outro fator de impasse na reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio, em Seattle. Se os europeus eliminarem um terço dos subsídios, argumentou o presidente norte-americano, outros exportadores de produtos agrícolas poderão ter um ganho de US$ 4 bilhões.
O discurso foi apresentado perante um auditório de políticos
empresários, técnicos e governantes. Estavam nas primeiras filas os presidentes da Argentina, da Colômbia, da áfrica do Sul e da Autoridade Nacional Palestina, além do primeiro-ministro espanhol e de ministros de vários países, do presidente da Federação Americana do Trabalho e Congresso das Organizações Industriais (AFL-CIO), John Sweeney, crítico da globalização e defensor da inclusão de critérios trabalhistas e ambientais entre as cláusulas de comércio.
Clinton se dirigiu a Sweeney duas vezes, durante o discurso, como se estivesse falando a um adversário da liberalização comercial. No entanto, reproduziu as posições da AFL-CIO e a de vários grupos participantes dos protestos de Seattle.
Os participantes dos protestos podiam estar errados ao se opor à liberalização comercial, disse Clinton, mas estavam certos ao defender certos direitos e a proteção do ambiente. Muitos grupos defendiam objetivos opostos, acrescentou, mas tinham em comum a revindicação de ser ouvidos. "O comércio", segundo Clinton, "não pode ser uma província particular de dirigentes de políticos, dirigentes de empresas e especialistas." Os governos contrários à inclusão de cláusulas ambientais e trabalhistas nas normas de comércio, como os do Brasil, da Argentina, do México e da maioria dos países em desevolvimento, afirmam haver foros apropriados para a discussão desses temas. Um deles é a Organização Internacional do Trabalho. Clinton respondeu hoje a esse argumento.
Segundo ele, existe uma instituição bem desenvolvida para o tratamento de questões comerciais, mas nenhuma em condições de cuidar com a mesma eficiência dos assuntos sociais e ecológicos. Em outras palavras: é preciso mesmo tratar desses temas na OMC. Europeus, na reunião de Seattle, chegaram a admitir o tratamento desses temas em comissões especiais, mas sem a adoção de normas impositivas, isto é, de sanções comerciais.
Na primeira parte de seu discurso, Clinton falou sobre as mudanças tecnológicas e econômicas das últimos decênios, marcados pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e por novos padrões de integração econômica internacional. Quando surgem novos paradigmas, surgem também desigualdades, porque alguns aproveitam as oportunidades mais velozmente, afirmou. Isso ocorreu na industrialização do século 19 e do início do século 20 e está novamente ocorrendo, afirmou. Nos Estados Unidos, acrescentou, a desigualdade foi maior nos últimos 25 anos do que nas décadas anteriores e só voltou a declinar há uns 3 anos.
Como antes, o problema será atenuado, se forem criadas oportunidades para a maioria dos trabalhadores. Investimentos em educação e em treinamento serão alguns dos meios para isso, de acordo com Clinton. Esses gastos serão mais facilmente realizados em todos os países, argumentou, com expansão do comércio e liberdade de investimento.
Balanço do discurso, segundo o empresário Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho da Sadia e vice-presidente da Fiesp: Clinton acendeu uma vela a Deus, ao defender a retomada das negociações comerciais, e outra ao diabo, ao insistir nas cláusulas trabalhistas e ambientais.
Clinton começou a falar às 12h30, com 15 minutos de atraso. Antes disso, sua segurança havia exigido o esvaziamento do principal auditório do Centro de Congressos de Davos, onde se havia realizado até 11h30 um debate sobre as tendências da economia nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, com participação do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, do ministro da Economia da França, Christian Sautter, e do vice-ministro de Finanças para Negócios Internacionais do Japão, Haruhiko Kuroda. Além de exigir o esvaziamento do auditório, para exame do local, a segurança norte-americana impôs o fechamento de todas as portas menos uma, forçando grande parte do público a se comprimir. Muitos europeus reagiram e se recusaram a deixar o local. A segurança cedeu e pediu o esvaziamento de algumas das primeiras filas. "A Europa venceu", comentou um dos indignados resistentes.