Washington, 29 (AE) - Com os Estados Unidos no auge da prosperidade, o presidente Bill Clinton disse nesta quarta-feira (29) que a luta contra a pobreza "é um imperativo moral e econômico" e anunciou a disposição de seu país de perdoar 100% de seus créditos aos 36 países mais pobres do mundo.
"Dívidas insustentáveis estão ajudando a manter um número demasiado de países pobres e de pessoas pobres na pobreza", disse o líder norte-americano, apenas duas semanas depois de o Banco Mundial ter demonstrado, num estudo, que o mundo está andando para trás na luta contra a pobreza e o número de pessoas que vivem na miséria absoluta, com uma renda de menos de 1 dólar por dia, saltará de perto de 1,5 bilhão hoje para 1,9 bilhão no ano 2015.
"Espero que possamos começar o novo milênio com uma nova determinação, de dar a cada pessoa no mundo, através do comércio e da tecnologia, dos investimentos em educação e saúde, a chance de participar de uma prosperidade amplamente compartilhada, no qual o potencial de todas as pessoas possa se desenvolver mais plenamente", disse Clinton, falando aos ministros das finanças e autoridades econômicas de mais de 180 países durante a assembléia anual do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
O discurso do presidente norte-americano amplificou a mensagem que o diretor gerente do FMI, Michel Camdessus, transmitira na véspera, quando pediu à mesma platéia para "ouvir o clamor dos pobres", dizendo que "a extensão da pobreza ainda presente no final de um século de afluência é intolerável, e o grau de pobreza absoluta é absolutamente intolerável".
A ênfase de Camdessus no grande drama social do mundo marcou uma mudança de tom no discurso do dirigente de uma instituição cujo receituário de políticas econômicas é geralmente identificado por políticos, líderes sindicais e de associações cívicas ao redor do mundo como a fonte do desemprego e do aumento da pobreza nos países em desenvolvimento.
Dois dias antes, o FMI havia anunciado inclusão de metas sociais, como número de crianças matriculadas na escola, por exemplo, entre os critérios de desempenho que os países mais pobres terão que atender em seus programas de reestruturação econômica para se tornar elegíveis aos benefícios de alívio financeiro sob o novo programa ampliado de perdão de seus débitos a governos e organismos multilaterais, conhecido como HIPC (em inglês, Países Pobres Altamente Endividados).
Mas em várias passagens de seu discurso, Camdessus reafirmou a validade de todas as políticas de estabilização econômica do FMI e atribuiu à sua aplicação a atual tendências de recuperação das economias da ásia. Num recado claramente dirigido ao Brasil, onde alguns políticos viram em sua fala de terça-feira um súbito sinal de conversão à política mais flexíveis, o chefe do FMI disse que "nós sempre corremos o risco de, quando as perspectivas econômicas melhoram, de caminhar com demasiada lentidão na adoção das reformas necessárias".
A frase é uma recapitulação da resposta que ele deu em entrevista coletiva, na quinta-feira da semana passada, a uma pergunta da Agência Estado, quando advertiu os líderes políticos brasileiros sobre os perigos da complacência na aprovação das reformas - um tema também retomado hoje por Clinton.
Para os países em desenvolvimento não-elegíveis ao HIPC, a equipe econômica brasileira entende que a mensagem mais importante não está na nova disposição do FMI de falar de sua preocupação com a política social, mas sim na resposta da instituição, agindo em nome do departamento do Tesouro dos Estados Unidos e dos demais integrantes do Grupo das Sete Nações mais industrializadas deram ao Equador.
A mensagem é que países que resistirem às políticas fiscais de estabilização econômica, como foi o caso do Equador nos últimos quatro anos, e, em consequência disso, ficarem sem dinheiro para pagar seus credores externos não devem mais contar com o socorro da comunidade financeira oficial. "Quem acha, no Brasil, que o FMI vai ficar mais flexível, deve atentar para o caso do Equador", disse um assessor.
Mesmo ao falar sobre a preocupação do FMI com os temas sociais e a necessidade de coordenar melhor suas políticas, nessa área, com as do Banco Mundial, Camdessus notou que "esse temas não são novos para o Fundo".
Provavalmente por essa razão, e por causa do forte conteúdo de retórica do discurso, os três maiores jornais dos Estados Unidos - The Wall Street Journal, The New York Times, The Washington Post - e o diário londrino Financial Times o ignoraram em suas edições de hoje.
Passar da promessa de alívio da dívida aos mais países mais pobres será uma tarefa complicada. A generosa participação norte-americana que Clinton ofereceu depende da aprovação do Congresso, onde a causa da assistência econômica ao exterior tem poucos aliados.
O próprio Clinton referiu-se a isso dizendo que espera que sua proposta de alívio à divida dos países miseráveis não tenha o mesmo destino da contribuição de US$ 1,6 bilhões que os Estados Unidos devem às Nações Unidas e está há anos empacada no Congresso.
Há, além disso, articulações entre parlamentares norte-americanos para barrar a venda de 14 milhões de onças de ouro das reservas do FMI - a operação dá qual depende a participação da instituição no HIPC ampliado. E o Banco Mundial já anunciou que não sabe como financiará sua contribuição de US$ 5 bilhões.
A suspeita de que parte dessa conta acabará sobrando para países como o Brasil, por meio de um aumento do custo dos empréstimos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, levou o ministro da Fazenda, Pedro Malan, a manifestar a oposição do governo a esquemas de financiamento do HIPC que sejam feitos "às custas dos fluxos de capitais de outros países em desenvolvimento" e levem os "pobres a serem chamados a ajudar os mais pobres".

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