Clima é de tensão na Fazenda Refopas
Paulo Pegoraro
De Cascavel
Vamos resistir. Não temos alternativa. Entre enfrentar a violência como favelados em barracos na cidade ou lutar por um pedaço de terra, preferimos a luta. As afirmações, feitas na madrugada de ontem por Paulo Antonio (aparentemente, nome fictício), 39 anos, retratam a disposição de aproximadamente mil famílias de sem-terra organizadas pelo MST que ocupam duas partes da fazenda Refopas, no interior do município de Cascavel. Os dois acampamentos estão distantes aproximadamente 5 quilômetros um do outro. Em ambos, a disposição dos acampados é resistir a qualquer tentativa de despejo.
O clima é de tensão na área desde a noite de quinta-feira, quando os sem-terra receberam informação (que não se confirmou) de que a Polícia Militar poderia chegar a qualquer momento, para cumprir ordem judicial de reintegração de posse nos dois acampamentos e também em outro, ainda maior, com mil famílias, no município de Quedas do Iguaçu. As propriedades, respectivamente de Maria Elisa Festugatto e da empresa agroindustrial Araupel, foram invadidas há 5 meses e os sem-terra já semearam a safra de verão, por isso não estão dispostos a sair.
A PM realizou o primeiro dos despejos previstos para a região Oeste do Estado na semana passada, em Catanduvas. A ação foi relativamente fácil, porque eram apenas cerca de 150 sem-terra, somando homens, mulheres e crianças, e eles ainda não tinham consolidado a ocupação. Na Refopas e em Quedas do Iguaçu, porém, o número de pessoas é extremamente superior, as famílias são mais organizadas e podem contar com o reforço de acampamentos ou assentamentos próximos elas garantem que isso ocorrerá, no momento de resistir ao despejo.
Na Refopas, onde a reportagem da Folha de Londrina/Folha do Paraná esteve durante toda a madrugada, na expectativa de que a ação da PM ocorresse, o clima é de guerra. Homens e mulheres passaram a noite em vigília, com foices e facões, o que deveria continuar se repetindo. Quando o carro da reportagem estava ainda distante cerca de 2 mil metros de um dos acampamentos, espocaram foguetes: era o alerta para os dois locais, onde o som dos rojões é ouvido por igual, com o silêncio da noite. Qualquer movimento nas estradas é sinalizado desta forma.
A situação de risco do momento só foi superada quando o carro pôde ser visto de perto pelos sem-terra e identificado, assim como seus ocupantes. Vocês poderiam ser jagunços ou batedores da Polícia..., disse Paulo Afonso, na linha de frente da vigilância. Não temos armas de fogo, mas temos foices e facões e com elas vamos nos segurar, acrescentou. Além dos instrumentos cortantes, os sem-terra ostentam tochas, feitas com taquaras. As mulheres não saem de perto dos homens, assim como muitas crianças as menores ficam nos barracos.
Maria Nelina da Silva, 26 anos, dois filhos, diz que medo da chegada da PM a gente tem, mas enfrenta, mas as crianças ficam apavoradas. Ela, no entanto, acha melhor viver esta situação hoje, para que lá na frente a gente tenha um pedaço de terra. Maria garante que não fraquejará se a PM chegar, porque sempre soube que as coisas não seriam fáceis. Ao seu lado, Cléber Antonio (possivelmente nome fictício), 24 anos, garante não ter medo de nada, e é apoiado pelos demais sem-terra com suas palavras de ordem tradicionais, aos gritos.
Os acampados sabem que a ordem do governo para a PM cumprir a reintegração de posse em Catanduvas foi o sinal de que outras viriam a seguir. O governador Jaime Lerner (PFL) ouviu insistentes pedidos de fazendeiros, em visita a Cascavel na semana passada. O governador disse, porém, que ações que forem realizadas primarão pela observância dos direitos humanos.Acampados estão em alerta à espera da Polícia Militar, que pode chegar à área a qualquer momento para cumprir ordem de reintegração de posse
Edson MazzettoResistênciaAs famílias passaram a noite em vigília e prometem não deixar a área, onde já plantaram a safra de verão. A fazenda tem dois acampamentos distantes cinco quilômetros um dos outro e a disposição de permanecer no local é igual entre os dois grupos. Na foto abaixo, a sem-terra Maria Nelina da Silva, que diz temer a ação da polícia. Mas sempre soube que as coisas não seriam fáceis, afirma ela.





