Clima é de desconfiança na favela
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domingo, 09 de abril de 2000
Por Gláucia Leal 
São Paulo, 10 (AE) - Pouco mais de três anos depois de divulgadas as imagens mostrando cenas de espancamento na Favela Naval, o clima no local ainda é de desconfiança. Muitos moradores, como a dona de casa Sueli de Souza Araujo, de 19 anos
reconhecem: "Infelizmente, precisou morrer gente para que a situação melhorasse por aqui."
Em comum, os moradores têm o receio de que o policial Otávio Lourenço Gambra, o Rambo seja libertado e volte a atormentar a vida da população. "Depois da prisão dele a vida melhorou 100% na Naval", diz o pedreiro Ederaldo Sabino, de 24 anos, há 10 no local. "Eu mesmo já levei um empurrão de um policial, há uns quatro anos, só porque estava andando pela rua com as mãos nos bolsos", afirma o prensista Ney Cirino, de 22 anos. "Mas, depois que essas barbaridades apareceram na imprensa, a polícia só vigia, não maltrata mais ninguém."
O carteiro Tadeu Ferreira de Souza, que há 15 anos entrega correspondências na Naval - e caminha lá dentro cerca de 10 quilômetros por dia - também notou a diferença. "Agora as pessoas andam mais tranquilas." A moradora Maria José da Silva Araújo, de 36 anos, mãe de três adolescentes, confirma: "Antes era um inferno, tinha tiroteio quase toda a noite; agora melhorou."
Sossego - "Só não sei por que fazer novo julgamento, esse homem tem de ficar preso", afirma o camelô André Lima, de 25 anos. O carpinteiro aposentado Dorvino Vitório, de 65 anos, desde 1975 morador da Rua Naval, onde o Mário José Josino foi assassinado, também não esconde o ressentimento em relação a Gambra. "Uma noite eu estava fumando na janela da minha casa, ele apontou a arma em minha direção e gritou: Vai já para dentro, galo cego", relata. "Foi desrespeito, estava no meu quarto, tinha direito de ficar lá."
Outros moradores, mais cautelosos, preferem não fazer comentários. "O negócio aqui é não ver nada e não saber de nada", diz a pernambucana M.P., de 38 anos. "De uma hora para outra, esses pestes podem sair da cadeia e aí pronto, acaba o sossego da gente."


