Alvorada do Sul - Longe da rodovia, apenas as batidas dos martelos e o canto dos passarinhos quebram o silêncio na Fazenda Itaverá. Mas a aparente sensação de tranquilidade é quebrada com frequência. Na quarta-feira passada, uma disputa pela colheita de um pequena área de café em meio ao mar de canavial acirrou os ânimos. Trabalhadores da Usina Central se desentenderam com os sem-terra que apanhavam os frutos no pé. Uma equipe da Polícia Militar precisou ir até à fazenda para intermediar o conflito.
O chefe do setor da fazenda do Grupo Atalla, José Carlos Ribeiro, coordenava o grupo de trabalhadores da usina. "Queremos evitar ao máximo o clima de tensão. O objetivo é que tudo continue calmo até que saia a determinação judicial", pondera. Todos os trabalhadores foram orientados a manter distância e evitar qualquer tipo de confronto. A sensação de preocupação era visível nos olhares de ambos os lados.
Mal a viatura entrou pela porteira, as famílias souberam da notícia no acampamento, cerca de dois quilômetros fazenda adentro, já próximo da margem da Represa Capivari. "Falaram pra gente que o pessoal tinha sido preso, viemos correndo pra cá", conta Franciele Seno de Jesus, de 27 anos, com voz embargada pelo nervosismo. Após registrar a ocorrência, os policiais foram embora. Ninguém foi preso. "A gente só queria um pouco de café pra vender e comprar comida, pois o que temos está no fim."
Na cozinha comunitária do acampamento, o estoque de mantimentos tinha previsão de durar no máximo dois dias. Nos grandes panelões que vão ao fogo sobre um tambor de ferro improvisado como fogão, Marlei Gonçalves, de 37 anos, cozinha cerca de 30 quilos de arroz e 10 de feijão por dia. "Mistura não é todo dia que tem, no máximo um macarrão", conta. Ela conseguiu um lote no Assentamento Ester Fernandes, mas que foi até lá para ajudar os amigos. "A união é uma das características mais fortes do movimento", destaca.
A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado Paraná (Fetaep), braço da Contag no Estado, informou que apesar de defender o direito dos trabalhadores pela terra, não estimula as invasões que, em muitos casos, acabam atrapalhando o processo de desapropriação. Já o Grupo Atalla foi contatado para comentar a invasão, mas os diretores informaram que só se pronunciariam pessoalmente, o que não seria possível pelo prazo de fechamento da edição.(C.F.)

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