Clima de fim de crise antecede próxima reunião do FMI Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 17 (AE) - No auge da crise financeira da ásia, no segundo semestre de 1997, políticos, acadêmicos e jornalistas chegaram a anunciar a falência intelectual do Fundo Monetário Internacional (FMI). Além disso, boa parte dos formadores de opinião anunciava a derrota política do vice-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, o padrinho da estratégia desenhada para conter o cataclisma que ameaçava não apenas as economias emergentes, mas agravava a crise do Japão, o segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) do planeta, e ameaçava também Europa e os Estados Unidos.
O colapso da Rússia, em agosto de 1998 realimentou a síndrome do desastre iminente. Três meses mais tarde, quando já estava claro que o Brasil seria o próximo a naufragar, os próprios dirigentes do sistema temeram que o contágio da crise brasileira na América Latina poderia abreviar a mais longa e cintilante expansão da economia dos Estados Unidos e jogar o mundo numa recessão.
No ambiente carregado em que se instalou a reunião anual do FMI e do Banco Mundial (Bird), no fim de outubro, os economistas-chefes das duas instituições travaram um inédito bate-boca público sobre a estratégia do Fundo, com Joseph Stiglitz, do Banco Mundial (Bird), juntando-se aos críticos para atacar a política de juros estratosféricos que o Fundo recomenda para impedir que a desvalorização da moeda - o traço em comum das crises financeiras iniciadas no México, no fim de 1994 - se transformasse em inflação e derrotasse o propósito principal dos programas de ajuste econômico, que é preservar a estabilidade como base para o crescimento.
Milhões de sul-coreanos, filipinos e tailandeses continuam a sofrer os efeitos da mais aguda recessão de seus respectivos países em mais de trinta anos. Só Deus sabe - e talvez nem Ele - quando a Rússia começará a emergir dos escombros da economia soviética e da cleptocracia que floresceu em Moscou à sombra das reformas pró-mercado tentadas nos últimos dez anos. No Brasil, as boas notícias das últimas semanas sobre a inflação, a taxa de câmbio e os juros ainda não chegaram à economia real e o único consolo é saber que a crise poderá ser mais curta e menos severa do que se imaginava no início.
Porém, apesar de tudo isso, é num clima de fim de crise que ministros da Fazenda e presidentes dos Bancos Centrais dos mais de 180 países membros do FMI e do Banco Mundial reúnem-se no próximo fim de semana em Washington para sua discussão semestral sobre os rumos da economia mundial e a chamada "nova arquitetura" do sistema financeiro internacional - um conjunto de regras, princípios e mecanismos de financiamento em estudo para tornar a execução das políticas econômicas nacionais mais transparente e dotar o sistema de instrumentos para proteger os países que seguirem as políticas aprovadas contra a volatilidade financeira da economia global.
A metáfora da "arquitetura" não é considerada das mais felizes no próprio FMI. Mas isso não desanima um de seus dirigentes a prever que, na próxima reunião, talvez já se possa começar a retirada dos andaimes armados nos últimos anos para reformar o sistema. E, para reforçar a imagem, as autoridades financeiras encontrarão a sede do FMI reformada e ampliada, com uma nova ala e um jardim com quatro ou cinco pequenas fontes na frente do prédio completo com as flores da primavera.
"Até agora evitamos o pior e o pessimismo está começando a passar", disse esta semana o primeiro-vice-diretor-gerente do Fundo, Stanley Fischer, um dos bombeiros da crise cuja posição esteve em perigo. Os sinais da volta da estabilidade, o retorno gradual dos investidores aos mercados emergentes e a elevação das bolsas de valores nos principais mercados emergentes desde o início do ano (perto de 70% no Brasil, mais de 30% no México, 23% no Japão, 22% na Coréia, 18% em Hong Kong e quase 15% nos EUA) trouxeram a tranquilidade necessária para a transição de comando no Tesouro dos Estados Unidos.
Nas próximas semanas, Summers será recompensando por sua contribuição para o êxito da economia norte-americana no atual governo e a bem sucedida administração da crise financeira internacional assumindo o lugar de seu chefe e protetor, o influente secretário do Tesouro Robert Rubin, que está cansado de viver na ponte aérea entre Washington e Nova York, onde mora sua mulher, e quer voltar à vida privada depois de mais de seis anos no governo.
No FMI, as manifestações de alívio e satisfação pela superação da crise vêm sendo acompanhadas pelas duas advertências que são parte do mandato da instituição de zelar pelas solidez e estabilidade da economia mundial. "Não há lugar para a complacência e o equilíbrio dos riscos continua a apontar para baixo", diz um de seus dirigentes. Entre os riscos estão: a possibilidade de uma correção de 10% a 15% no mercado de ações nos EUA, esperada para o segundo semestre por vários analistas; a perspectiva de desaceleração do crescimento da economia americana este ano, as fortes dúvidas sobre a capacidade da Europa e do Japão de compartilhar papel de locomotiva da economia mundial com os EUA e o desempenho anêmico em 1999 esperado na maioria das economias emergentes mais importantes. Um relaxamento na execução das reformas econômicas no Brasil ou na Coréia frustraria rapidamente a busca da confiança dos investidores e os recolocaria na lista dos países a evitar. "A situação em vários países serve de lembrete que os mercados emergentes são ainda um mundo arriscado", disse Summers na semana passada ao The Wall Street Journal.
A mesma advertência é ouvida no FMI. A dúvida, entre os dirigentes da instituição é se a tragédia econômica iniciada com a crise do México terá dois atos - a própria crise mexicana e, depois, os colapsos da ásia, da Rússia e do Brasil - ou se terá três. O "terceiro ato" viria com um arrefecimento da economia americana antes de as economias européias e japonesa voltarem a dar sinais de maior vigor, um quadro que alimentaria ainda mais as pressões protecionistas nos EUA e nos demais países industrializados, que o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Alan Greenspan, atacou na sexta-feira.
Apesar desse risco, a reunião desta semana do FMI e do Banco Mundial será a primeira desde o início da crise asiática que não será dominada por uma emergência. Por mera coincidência de calendário, isso será realçado pela cúpula comemorativa do Cinquentenário da OTAN, que reunirá 19 chefes de governo em Washington às vésperas da reunião do FMI e no momento em que a mais bem sucedida aliança militar da história vive seu primeiro e enorme fiasco, os ataques à Iugoslávia para forçar uma retirada das tropas sérvias da região do Kosovo.





