Claudia Schiffer e Gong Li esbanjam charme em Cannes Do enviado especial LUIZ CARLOS MERTEN
Cannes, 13 (AE) - Belas mulheres e glamour fazem parte da mitologia de Cannes e ajudam a explicar por que o festival da cidade francesa é um dos eventos mais mediatizados do mundo. São 20 mil os credenciados em Cannes, dos quais 5 mil são jornalistas. Na noite de ontem (12), uma multidão formada por centenas desses jornalistas urrava na frente do bunker, como é conhecido o palácio do festival.
Não era para menos. A LOreal, tradicional linha de produtos de beleza, é uma das patrocinadoras da mostra. O presidente da empresa, chegando para a abertura do festival, teve uma recepção de rei, ainda mais porque estava cercado por duas das mulheres mais desejáveis do mundo, ambas contratadas para divulgar a marca: a top model Claudia Schiffer e a superstar chinesa Gong Li.
Gong Li está ainda mais bonita do que no tempo em que era a atriz preferida de Zhang Yimou. Ela está aqui em Cannes contratada pela LOreal (com salário de US$ 1 milhão) e também porque estrela o filme de Chen Kaige, O Imperador e o Assassino, que integra a competição. Ainda bem que o 52.º Festival de Cannes tem o brilho de Gong Li. Ajuda a compensar a ausência de Catherine Deneuve.
Desde que Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy, ganhou a Palma de Ouro de 1964, Catherine tem sido uma frequência quase constante na Coisette. Este ano, ela participa da seleção com dois filmes que concorrem à Palma de Ouro. O primeiro passou hoje: Pola X, de Leos Carax. O segundo será Le Temps Retrouvé, de Raoul Ruiz, baseado em Proust.
Catherine era esperada hoje para a coletiva de Pola X. Mandou avisar que não viria porque estava presa no set de rodagem do seu novo filme. Tentará chegar ao festival na semana que vem para prestigiar a obra de Ruiz. Numa declaração gravada e amplamente divulgada, Catherine manifesta sua satisfação de estar no filme de Carax. "É alguém a quem admiro", diz.
Carax é um dos neobarrocos do cinema francês, com Luc Besson e Jean-Jacques Beineix. Enquanto Besson se tornou o queridinho dos americanos na Europa - após o sucesso de O Quinto Elemento conseguiu um orçamento de US$ 60 milhões para fazer Joana DArc, com Mila Jovovivh -, Carax esteve a ponto de desistir da carreira, após o estouro de orçamento de Os Amantes do Pont Neuf, que o transformou numa espécie de maldito na França.
Para Pola X, baseou-se num original de Herman Melville, que o grande escritor produziu logo após a obra-prima Moby Dick. O livro é Pierre or The Ambiguities. Em francês, Pierre ou les Ambiguités. As iniciais francesas do livro deram o título ao filme de Carax, acrescido do X porque trata de amores interditos (e tem uma cena de sexo explícito entre Guillaume Depardieu e Katerina Gulobeva).
O filme conta a história de um escritor de sucesso (Guillaume, filho de Gérard Depardieu). Mas esse sucesso é um pouco estranho, porque ele se esconde por trás de um pseudônimo para dar seu testemunho sobre a juventude atual. O personagem tem uma noiva e uma mãe (Catherine Deneuve). Começa a ter sonhos estranhos com uma mulher misteriosa. Ela surge encarnada em Katerina, que se apresenta como irmã de Guillaume.
Carax explica o incesto dizendo que seu cinema trata sempre de almas gêmeas. Com Katerina, Guillaume mergulha no submundo, levando uma vida de degradação como homeless. A estética é a mesma de Pont Neuf, com seus mendigos excepcionalmente bem fotografados.
A personagem de Katerina vem do devastado Leste Europeu. Fala francês mecanicamente, como uma morta-viva. É um filme sobre fantasmas, diz Carax. Ouviram-se vaias após a projeção, o que deve ter surpreendido o delegado-geral do festival, Gilles Jacob. Ele selecionou o filme em fevereiro, dois meses antes do anúncio da seleção oficial.
Jacob, equivocadamente, deve ter visto em Pola X sinais da "modernidade" à qual sua seleção, segundo ele, está atenta. O filme é rebuscado e velho como o pós-moderno, do qual quase ninguém mais fala, felizmente.





