Classe média sente nos preços a desvalorização do real Denize Bacoccina
São Paulo, 6 (AE) - Apesar da promessa dos supermercadistas, de que iriam segurar os preços, a alta do dólar foi, sim, repassada ao consumidor. Apesar de a cesta básica ter subido pouco, uma olhada mais atenta nas pesquisas mostra que produtos mais consumidos pela classe média tiveram aumentos muitos superiores aos índices de inflação.
A forte competição de preços nos produtos básicos leva o varejo a trabalhar com margens bastante reduzidas nesses itens, compensando nos outros, justamente os que mais pesam no orçamento da classe média. "A margem é maior nos supérfluos, mas ao mesmo tempo são esses itens que o consumidor está cortando por falta de dinheiro", diz o presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Omar Assaf.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), calculado semanalmente pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo (USP), aponta uma inflação de 4,39% desde a última semana de dezembro do ano passado.
Na média, os gastos com alimentação subiram míseros 0 72%, mas uma análise dos itens que compõem o grupo mostra um comportamento bem variado.
O leite é um bom exemplo. Na média, o produto subiu apenas 1,03% este ano. Mas, enquanto o leite especial (o mais barato) aumentou 0,22% e o leite tipo B subiu 0,27%, o leite longa vida ficou 20,9% mais caro este ano. Era justamente no segmento do longa vida que o leite importado entrava até o ano passado para regular o mercado nacional.
Também subiram muito acima da média os pães (8,7%) e café, chás e bebidas achocolatadas (19,5%). As massas tiveram aumento médio de 14% e o preço da farinha de trigo disparou, com alta 24% desde janeiro. Ao mesmo tempo, os alimentos in natura tiveram uma redução média de 3%. As frutas ficaram 7% mais baratas e os tubérculos baixaram 20%, mas os legumes aumentaram 18,8% e as verduras, 2%.
"O consumidor só lembra dos produtos que aumentam e não presta atenção nos que estão ficando mais baratos", analisa o economista Heron do Carmo, coordenador do IPC-Fipe. Mas ele concorda que, principalmente para a classe média, a compra do supermercado ficou mais cara nos últimos meses. "Os básicos subiram pouco ou até ficaram mais baratos, mas pesam pouco no orçamento da classe média."
Analisando os preços da cesta básica, é possível ver que as condições climáticas e o movimento sazonal de safra e entressafra deram uma ajudazinha para a manutenção do preço estável. Dos 31 itens da cesta básica pesquisada pelo Procon e Dieese, 20 subiram, nove ficaram mais baratos e dois mantiveram o preço em relação a 11 de janeiro, último dia antes da desvalorização.
Os preços que baixaram foram justamente os dos produtos mais básicos, com maior peso na cesta: feijão, batata, cebola, arroz, linguiça fresca e frango resfriado. São produtos de origem agrícola, cujo preço foi pressionado para baixo porque a oferta é maior nesse época do ano do que em janeiro.
Entre os itens que mais subiram nos últimos oito meses, estão justamente os menos básicos, com maior presença nos carrinhos da classe média.
Agora, mesmo os preços que caíram no primeiro semestre estão com tendência de aumento. O feijão já subiu em agosto e acumula alta de mais 7,7% nos primeiros três dias de setembro. O açúcar também já subiu 2,99% desde o fim de agosto.
Os nove produtos de higiene e limpeza que integram a cesta acumulam alta desde o início do ano. Alguns já começam a recuar, mas o papel higiênico aumentou mais 5,77% no início de setembro. Na IPC da Fipe, os artigos de limpeza tiveram alta média de 7,9%, enquanto os artigos de higiene subiram 4,8%.





