Rio, 30 (AE) - O empobrecimento da classe média e o aumento do poder aquisitivo dos mais pobres está reduzindo, embora de forma ainda muito tímida, o grau de concentração de renda da população. Mesmo assim, o Brasil ainda está a léguas da igualdade social. Esta avaliação é feita por uma medida adotada internacionalmente chamada Gini, que varia de zero (perfeita igualdade) a 1 (desigualdade máxima). A taxa nacional em 1998 foi de 0,575. Foi o melhor resultado desde 1992, quando o indicador ficou em 0,571.
"Uma questão interessante hoje seria definir o que é a classe média", comenta Vandeli Guerra, consultora do Departamento de Emprego e Rendimento do IBGE. A classificação, levando em consideração o rendimento médio mensal, é realmente difícil. O número de pessoas com ocupação e rendimento hoje no País é de 59,5 milhões. Os 10% mais ricos estavam, em 98, situados na faixa de rendimento médio mensal de R$ 2.480 e detinham 46,5% da massa de rendimentos total do País. A média geral não passava de R$ 533 o que, descontados os efeitos da inflação, representou uma queda de 0,9% em relação à média do ano anterior.
Os 10% mais pobres, com média mensal de R$ 56, respondem por apenas 1% da massa de rendimentos movimentada no País. Para esta parcela de trabalhadores, os ganhos de 97 para 98 foram de 7,7%, um índice bem acima da inflação. Em termos nominais, o aumento pode ser considerado insignificante, mas os técnicos do IBGE comentam que, para a população de baixa renda, o reajuste de 5% no salário mínimo em maio de 98 representou de fato um avanço do poder de compra.
O Plano Real, instituído em julho de 94, provocou imediata queda da inflação e alta nos rendimentos em todas as faixas, da base ao topo da pirâmide. Em 96, passada a euforia do plano, os ganhos ficaram em patamares menores e passaram a crescer em ordem inversa ao valor dos rendimentos, ou seja, quem ganhava mais teve proporcionalmente reajustes menores na remuneração. Em 1997, o grau de concentração dos rendimentos entre as classes permaneceu inalterado e em 98, os trabalhadores com maiores rendimentos começaram a registrar perdas, enquanto os da base da pirâmide continuaram a avançar, mesmo que pouco.
Houve um pequeno ganho para os empregados (1,2%), mas não foi capaz de compensar, no cálculo geral, a perda de rendimentos dos trabalhadores por conta própria (-4,2%) e dos empregadores (-3,9%).
"Mesmo havendo, no geral, queda no rendimento médio, foi um fenômeno curioso a melhora observada na classe de rendimentos mais baixos", comentou o presidente do IBGE, Sérgio Besserman. "Isto quer dizer que não se perderam os ganhos do real.".
O presidente do IBGE admite que os resultados da PNAD de 99, que serão divulgados no ano que vem, com as consequências da desvalorização cambial, "serão cruciais" para a análise pós-crise internacional. Na análise geral, os contrastes regionais permanecem, com o Nordeste sendo responsável por remunerações médias substancialmente menores do que as do resto do País.

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