Clandestino é obrigado a deixar navio em alto-mar
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quinta-feira, 26 de julho de 2012
Adriana De Cunto <br> <br> Equipe da Folha 
Curitiba - A tripulação de nacionalidade turca de um navio cargueiro está impedida de deixar Paranaguá até que sejam apuradas as denúncias de racismo, tortura e tentativa de homicídio contra um estrangeiro africano que entrou de forma clandestina na embarcação. Os crimes teriam acontecido no mar territorial brasileiro e as denúncias estão sendo investigadas pela Polícia Federal (PF) e Ministério Público Federal (MPF) de Paranaguá.
As investigações começaram na semana passada, quando um navio do Chile resgatou, a aproximadamente oito milhas náuticas da costa brasileira, um homem que passou 11 horas à deriva, sustentado por um pallet (estrutura de madeira usada no transporte de cargas). A vítima, o camaronês Ondbo Happy Wilsred, de 28 anos, é um soldador industrial desempregado, que entrou clandestinamente no navio Seref Kuru, de bandeira maltesa, no Porto de Douala, em Camarões.
Wilsred contou à polícia que tinha intenção de ir à Europa, fugindo do desemprego, mas acabou entrando no cargueiro que viajou vazio para o Brasil para ser abastecido com açúcar em Paranaguá. De acordo com o depoimento da vítima, ele permaneceu escondido por oito dias até que sua comida e água acabassem. Quando foi descoberto, teria sido agredido verbalmente e fisicamente pela tripulação (formada por 19 pessoas). Wilsred disse que levou chutes no peito e tapas no rosto, chegando a ficar desacordado. Em estado fragilizado, teria sido levado a uma cabine de 2x3m. Um dos agressores teria dito que ''não gostava de preto'' e que para ele ''todos são animais''. Ainda conforme o depoimento, ao longo da viagem, o clandestino recebia duas refeições diárias e, à noite, alguns tripulantes batiam na porta e na janela para evitar que ele dormisse. No 11º dia de viagem, por volta das 19 horas, ele teria sido obrigado a deixar o navio com uma lanterna e 150 euros.
Segundo o procurador da República do MPF de Paranaguá, Alessandro José Fernandes de Oliveira, em um primeiro momento, a tripulação do navio negou que tivesse ocorrido qualquer episódio envolvendo um clandestino a bordo. No entanto, em buscas e apreensões realizadas a pedido do MPF e autorizadas pela Justiça foram descobertos vários elementos que indicam a presença do camaronês no navio, tais como a compatibilidade da descrição de detalhes do interior da embarcação e, ainda mais contundente, a localização e apreensão de uma fotografia que a vítima escondeu com objetivo de comprovar sua permanência no local.


