Civil, Militar
Um tiro no olho direito ceifou a vida do coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, ex-comandante geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro. A CPI do Judiciário vai usar politicamente o assassinado do juiz Leopoldino Marques do Amaral, do Mato Grosso. A juíza alagoana Nirvana Melo Viana precisou pedir garantias de vida em Brasília depois de denunciar uma rede de prostituição juvenil para servir fazendeiros que contava com a cumplicidade de um colega, juiz, um promotor e um padre.
São doses para mamute esses exemplos de casos que mostram uma banda podre da sociedade brasileira, mergulhada em casos de violência sem fim. O Departamento de Estado dos EUA elencou São Paulo, Rio e Brasília como cidades perigosas, prevenindo seus turistas até com um site na Internet. Para aonde vamos? ‘‘Estratégia Nacional de Segurança Pública’’ foi tema de um seminário, no início da semana, no Rio. Vamos ver o que têm a nos dizer o ministro da Defesa, Élcio Alvares, e o chefe da Casa Militar da Presidência da República, general Alberto Cardoso.
As visões de um civil, agora com responsabilidade de supervisionar as Forças Armadas, e de um militar com status de ministro de Estado, são importantes para que possamos compreender o que se pensa nas altas esferas de Governo sobre o assunto. Alvares diz que tem acompanhado com atenção os projetos de reengenharia da segurança pública. ‘‘Qualquer precipitação em tarefa dessa magnitude, que se propõe a alterar uma estrutura bicentenária, pode ser desastrosa.’’
O ministro da Defesa disse com todas as letras: ‘‘parece indiscutível que a nação brasileira, em sua maioria, vive em estado de insegurança, reclamando medidas de defesa como redefinição de prioridades e políticas, em todos os campos, para a reversão desse quadro’’.
Cardoso foi enfático: ‘‘depois do desemprego, a violência é o problema que mais preocupa a opinião pública. Apesar da relevância do assunto, o Brasil não possui uma Política Nacional de Segurança Pública, que sirva de referência para uma estratégia. Ao concluir por essa necessidade, é importante que se caracterize a crise na segurança, identificando os principais óbices à redução da criminalidade’’.
Segundo o general, o ‘‘homem cordial brasileiro’’, na definição de Sérgio Buarque de Holanda, vive inserido num ambiente de insegurança, comparável talvez ao de algumas nações em guerra. É preciso dizer basta!
É importante conhecer tais pensamentos e ver como eles se irradiam ou são barrados. O secretário da Segurança gaúcho cismou que policial ao abordar delinquentes precisa avisar, antes, que está armado. Algo assim: ‘‘sou policial, estou armado, viu?’’ Isso é ridículo. Andar armado é parte da essência do policial. Absurdo seria o contrário, a menos, evidente, que a gente vivesse numa república só de anjos, arcanjos e querubins.
As polícias civis trataram de fazer congresso durante a semana, em Aracaju, Sergipe. A Secretaria da Segurança do Pará promoveu um seminário e convidou-me para falar em Betim o que a sociedade espera hoje da sua Polícia.
Voltemos ao começo da coluna. Conheci bem o coronel Nazareth. Acreditava em expurgo de maus elementos, na aproximação da Universidade com a Polícia, fez um monte de coisas – algumas boas, outras fora da realidade, muitas sonhadoras. A violência matou-o estupidamente. As teorias não foram suficientes para salvá-lo.
O juiz Leopoldino, que não teria sito morto se fosse protegido, é uma morte anunciada que mete o Judiciário numa enrascada. É preciso frisar que quando se fala em ‘‘Judiciário’’ e da necessidade de alguma forma de controle, não estamos falando de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais... Estamos falando de um país continental, onde acontecem coisas de arrepiar os cabelos, inclusive dentro do Judiciário. Ou não? E a juíza de Alagoas, que foi ao Ministério da Justiça pedir proteção contra a gangue que arregimenta meninas para saciar sexualmente a ricaços e protegidos por um juiz, um promotor e um padre?
A gente não pode mais fazer de conta que essas coisas não existem, que pimenta nos olhos dos outros é colírio, que existem intocáveis. As palavras do ministro da Defesa e do chefe da Casa Militar da Presidência são significativas. Não são tudo, porém. Para reverter esse quadro, é preciso saber diagnosticar e ousadia de agir. O mais rapidamente possível.

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