Ney de Souza‘‘Precisamos melhorar nossa imagem e recuperar o turista’’, prega Charif Hamoud, presidente do Cicap‘Ciudad del Este vende produto bom’
Valmir Denardin
Há dois anos, Charif Hammoud, um libanês naturalizado paraguaio, é o general que comanda uma nova ‘‘guerra do Paraguai’’: acabar com a venda de produtos falsificados em Ciudad del Este, o principal centro comercial do país e um dos mais importantes do mundo. ‘‘Precisamos melhorar nossa imagem e recuperar o turista’’, prega.
Presidente do Centro de Importadores e Comerciantes de Alto Paraná (Cicap), Hammoud conta com dois aliados importantes: os governos do próprio Paraguai e dos Estados Unidos. Apesar de o fim da guerra estar longe, algumas batalhas já foram vencidas. A soma de mercadorias pirateadas já apreendidas ultrapassa US$ 100 milhões.
Refinado e poliglota, Hammoud, de 43 anos, comanda a Monalisa, a maior e mais requintada loja de Ciudad del Este, que é considerada uma das melhores do Mercosul. Em seu escritório, no segundo dos sete andares da loja - cercado de butiques exclusivas como Cartier e Mont Blanc -, Hammoud concedeu a seguinte entrevista à Folha.
Folha - Qual é a expectativa dos empresários de Ciudad del Este em relação ao novo governo paraguaio?
Charif Hammoud - O novo governo assumiu prometendo soluções para problemas do Paraguai e de Ciudad del Este. Temos esperança e vamos apoiá-lo em tudo que beneficiar a região das Três Fronteiras. Queremos recuperar a imagem dessa região. Precisamos investir para melhorar a qualidade de vida, a imagem e o turista que deixou de nos visitar.
Folha - De que forma isso poderá ser feito?
Hammoud - Para começar, as prefeituras de Foz do Iguaçu, de Ciudad del Este e de Puerto Iguazú (Argentina) precisam trabalhar juntas, com o apoio de seus governos nacionais e estaduais, em um plano global para melhorar a imagem da região. Para isso, já temos o apoio do governador do Departamento de Alto Paraná, Jotvino Urunaga (Partido Colorado), também recém-empossado. Nesse sentido, também já iniciamos a campanha ‘‘Foz 2000. Apareça!’’, que divulga a região e tem o patrocínio de grandes empresas de Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguazú.
Folha - A principal iniciativa do Cicap para melhorar a imagem de Ciudad del Este é a campanha contra a venda de produtos pirateados. Como está essa campanha?
Hammoud - Uma das promessas do novo presidente, Raúl Cubas Grau (Partido Colorado), foi combater, com maior rigor ainda, a pirataria. A campanha começou há dois anos. No final de agosto, em apenas um dia, foram apreendidos produtos falsificados que somavam US$ 5 milhões. Já trouxemos aqui o subsecretário de Estado norte-americano, Peter Romero, e a embaixadora dos Estados Unidos em Assunção, Maura Hart, para que eles conhecessem nosso plano para esse trabalho. Acredito que, em poucos meses, esse plano terá o sucesso que estamos esperando. Com isso, vamos mostrar que, em Ciudad del Este, há os dois lados: há produtos falsificados, mas também muitos produtos originais, de ótima qualidade.
Folha - Qual é a soma, em dinheiro, de mercadorias falsificadas já apreendidas?
Hammoud - Apenas neste ano, até setembro, chegou a US$ 50 milhões. Desde o começo da campanha, já ultrapassou os US$ 100 milhões.
Folha - Como o senhor avalia a participação dos Estados Unidos nessa campanha?
Hammoud - Para nós, isso é muito importante. Muitas empresas americanas estão sendo prejudicadas pela pirataria, que não acontece no Paraguai, mas na Ásia (China, Taiwan), e até no Brasil. Fabricadas fora do Paraguai, essas mercadorias vêm para cá para serem vendidas. O Paraguai não falsifica quase nada. A maioria dos produtos já vem de fora pronta. Por isso, o governo paraguaio pediu ao governo americano ajuda para combater a entrada desses produtos no país, pelas fronteiras e aeroportos.
Folha - Qual o tipo de mercadoria mais falsificada?
Hammoud - São CDs, fitas, equipamentos para telefone celular, relógios e equipamentos eletrônicos. Os falsificadores buscam geralmente produtos pequenos, em que é fácil mudar a marca.
Folha - Na sua opinião, que medidas práticas devem ser tomadas para melhorar a situação econômica nas Três Fronteiras?
Hammoud - Precisamos recuperar a imagem, trazer o turista de volta e dar a ele a segurança necessária, facilitar o trânsito e o controle de pessoas na Ponte da Amizade. Somos a fovor do controle feito pela Receita Federal na aduana brasileira, mas acredito que o trânsito tem que ser facilitado para os habitantes da região. Quem mora em Foz e trabalha em Ciudad del Este, muitas vezes passa até duas horas na fila para cruzar os mil metros da fronteira.
Folha - A campanha ‘‘Foz 2000’’ já é uma iniciativa integrada de melhorar o turismo nas Três Fronteiras?
Hammoud - Exatamente. Temos o apoio do Cassino Iguazú, de Puerto Iguazú, dos grandes hotéis de Foz e das grandes lojas de Ciudad del Este. Os três países já estão trabalhando juntos para melhorar a imagem das Três Fronteiras.
Folha - Como o Cicap avalia a autorização do governo argentino para a instalação de uma zona franca em Puerto Iguazú?
Hammoud - Apoiamos qualquer projeto para as Três Fronteiras. Acredito que isso vai trazer investimentos para a região e beneficiar a todos.
Folha - Isso não vai gerar concorrência com o comércio de Ciudad del Este?
Hammoud - Hoje os comerciantes de Ciudad del Este estão bem mais maduros em relação a uma zona franca que ainda vai começar em Puerto Iguazú. Puerto Iguazú vai levar um tempo para poder competir conosco.
Folha - O comércio de Ciudad del Este planeja uma grande campanha de vendas?
Hammoud - Vamos fazer uma grande campanha para o final do ano, aproveitando o Natal e o Réveillon. Isso vai estimular os turistas para fazer compras aqui. A idéia é que o turista fique mais dias hospedado em Foz do Iguaçu e faça suas compras em Ciudad del Este.
Folha - Hoje Ciudad del Este é mais segura do que era há alguns anos?
Hammoud - Está muito mais segura, com mais policiais nas ruas. O número de assaltos caiu 70%. Essa é uma contribuição da Polícia Nacional para melhorar o turismo. A chefia da Polícia Nacional do Paraguai, que assumiu com o novo governo, prometeu intensificar a campanha contra a violência.

PERFIL
Nome:
Charif Hammoud
Idade:
43 anos
Onde nasceu:
Líbano
Tempo em que
mora no
Paraguai:
28 anos
Estado civil:
Casado; 3 filhos
Atividade:
Comércio
Cargo atual:
Presidente
do Cicap

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