São Paulo- Quando o bisturi se aproxima do olho a ser operado e o coração do paciente dispara de temor, o CD começa a rodar no aparelho do Dr. Marcelo Cunha. Se o cliente tiver olhinhos puxados, música oriental. Se vier com sotaque da Mooca, bairro italiano de São Paulo, uma seleção italiana. Aos de mais idade, em geral escolhidos pelas cataratas, um autêntico Frank Sinatra para recolocar o ritmo cardíaco no andamento certo.
Dr. Marcelo fez assim mais de três mil cirurgias de olhos que, acredita, deixa menos assustados diante de seus bisturis. ''É como se fosse musicoterapia. Uma cirurgia traz sempre apreensão mesmo porque, em geral, uso apenas anestesia local. Senti que a música relaxa os pacientes. Muitos me procuram nos dias seguintes à cirurgia para dizer que não sentiram dor alguma.''
Muitas trilhas sonoras para as cirurgias do oftalmologista são feitas pela DJ Mônica Soldan, ao estilo electronic lounge music. ''Não toco como DJ durante as cirurgias. O que faço é uma ambientação sonora'', explica antes de qualquer confusão.
Quais seus critérios para agradar e relaxar o paciente que está ali crente que em breve seu globo ocular sairá rolando pelo piso do consultório? ''Música boa que tenha efeito relaxante. Ao mesmo tempo não pode ser tão calma, não pode dar sono, tem que ter melodia. Ela vai trabalhar no subconsciente.''
E o subconsciente do médico? Newton Kara José Jr., professor titular de oftalmologia da Faculdade de Medicina da USP, diz que, para se ter certeza da eficiência de qualquer procedimento, é necessário que se faça pesquisas com grupos de pacientes. No caso da música durante as cirurgias, no entanto, ele diz: ''Mal não faz.'' Dr. Marcelo, por sua vez, diz que não há riscos de distração. ''Quando a música pára é que me atrapalho. O silêncio aumenta a tensão no ambiente, aquele som do oxigênio, dos passos de alguém no corredor.

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