Ciro Gomes ignora denúncias e viaja para os EUA
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sábado, 09 de outubro de 1999
Por César Felício 
Brasília, 10 (AE) - O ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes (PPS), candidato do partido à presidência, rejeitou sugestões de seus correligionários e viaja amanhã (11) para os Estados Unidos sem procurar a Receita Federal para esclarecer possíveis irregularidades em suas declarações de renda de 1995 e 1997. "Não vou adiar viagem alguma, porque fui agredido e não devo mudar a minha vida por causa disto", afirmou, se referindo à reportagem publicada hoje pelo jornal "Folha de S.Paulo", em que é acusado de omitir rendimentos para a receita. Ciro irá passar duas semanas em Boston, em compromissos com acadêmicos locais.
Na manhã de hoje, Ciro Gomes conversou por telefone com o presidente do PPS, senador Roberto Freire (PE), que o aconselhou a se antecipar a qualquer manifestação da Receita Federal, verificar se existe débito fiscal e quitá-lo. "Eu disse que se for o caso, ele deve pagar", afirmou Freire, para quem "a viagem poderia ser adiada por alguns dias, para se evitar a impressão de que ele estaria se esquivando de dar informações". Mas o ex-governador não aceitou os conselhos.
"Na minha convicção, bolsa ganha nos Estados Unidos, para exercer atividades nos Estados Unidos, não é rendimento tributável no Brasil e minhas declarações de renda estão absolutamente corretas", disse Ciro, acrescentando que "quem deve esclarecimentos é a Receita Federal, que não resguardou o sigilo fiscal". Nas declarações mencionadas na reportagem, o ex-governador relacionou rendimentos de apenas R$ 13.624,63 em 1995 e R$ 2.340,05 em 1997, período em que residiu nos EUA.
A convicção de Ciro Gomes de que não deve esclarecimento algum não é compartilhada pelo próprio presidente do PPS. "Podem ter acontecido incorreções, o que é normal, e eu disse a ele para esclarecer isso logo", afirmou Freire. A acusação de que o patrimônio de Ciro cresceu aceleradamente nos últimos anos não preocupa o candidato e tampouco o partido porque a vinculação que o candidato tem feito de agendar palestras pagas em seus deslocamentos no País proporciona a ele uma renda compatível com uma variação patrimonial expressiva. Em um relatório, a que a Agência Estado teve acesso, consta que Ciro Gomes realizou 46 palestras pelo País em 18 meses, cobrando valor médio de R$ 6.200,00 cada e recolhendo, em média, ao fisco R$ 1, 2 mil por conferência. No total, Ciro recebeu R$ 282.770 62 e pagou R$ 57.830,37 à Receita Federal. Repercussaõ - As denúncias contra Ciro foram avaliadas como de baixa repercussão política por seus adversários, tanto no campo governista como no da oposição. "Isto não cria problemas maiores, mas tudo dependerá de sua postura. Se ele errou, tem de admitir", disse o líder do PT na Câmara, deputado José Genoíno Neto (SP). De acordo com Genoíno, "uma denúncia como esta só é publicada com destaque porque se trata de um político de oposição em evidência, e a guerra da sucessão já começou".
Para o líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), "Ciro não é uma pessoa desonesta e é preferível combatê-lo no campo das propostas". De acordo com Virgílio, o candidato do PPS deverá ter algum desgaste com a denúncia pelo fato de Ciro Gomes ser conhecido como um "santo guerreiro da moralidade". Para o parlamentar, "Ciro é vítima da própria figura que construiu para si, querendo parecer mais honesto do que todo mundo". E ponderou que "se ele não procurasse ser uma espécie de Catão moderno, não se tornaria vulnerável a ataques como esses", se referindo ao político romano que se tornou conhecido pelas denúncias de imoralidade que fazia aos seus adversários. (Colaborou Gerson Camarotti)


