Campinas, SP, 03 (AE) - O ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes (PPS) reagiu com irritação às declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornal "O Estado de S.Paulo" de que o economista Mangabeira Unger está propondo um novo calote na economia, a exemplo do plano adotado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello. Unger, conhecido como o principal conselheiro de Gomes, deverá filiar-se ao PPS nos próximos dias. "O presidente por vezes age como um reles mentiroso", disparou Gomes. "Há três meses, ele chamou o Mangabeira para conversar em sua casa e por isso sabe que a proposta não tem nada a ver com o que o Collor fez", completou.
Segundo Gomes, o plano de Unger, que deverá constituir um dos pilares de sua plataforma política para disputar as próximas eleições presidenciais, propõe a renegociação da dívida pública "com total respeito aos contratos".
O ex-ministro, que realizou uma maratona política na região de Campinas, considerou "lamentável" as divergências entre os ministros do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, e da Fazenda, Pedro Malan, sobre os rumos da política econômica. "A culpa disso é do presidente, que é incompetente para decidir", afirmou. Segundo ele, enquanto não houver uma "coesão operacional e conceitual", os problemas serão insuperáveis.
Para Gomes, as desavenças públicas tornaram-se uma espécie de "esporte" para a equipe do governo. "Esse antagonismo insuportável ficou claro desde o momento em que o presidente chamou o Serra (ministro da Saúde, José Serra) para compartilhar o mesmo espaço com o Malan (ministro da Fazenda, Pedro Malan)", disse. "O presidente está querendo colocar gato e cachorro no mesmo saco; isso é ridículo", completou.
Falando como candidato à Presidência, Gomes defendeu uma urgente união entre os partidos de esquerda e centro-esquerda. Deixou explícito o seu interesse em compor uma aliança com o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, de preferência antes do primeiro turno das votações. "Se tivermos uma certa audácia, fazemos isso agora", afirmou. "Se não der no primeiro turno, pelo menos deveríamos deixar claro que estaremos juntos no segundo", disse.
O ex-ministro propõe a realização de seminários com os partidos de centro-esquerda e esquerda para discutir as principais questões nacionais. "Esses encontros nos possibilitarão convergir para uma proposta única", acredita. Ainda falando sobre o desejo de formalizar uma aliança com Lula, o candidato do PPS foi diplomático: "Somos diferentes, mas se temos responsabilidade para com o País, então temos de nos unir."
Na ampla aliança proposta por Gomes há espaço até para políticos do PMDB e PSDB. "A ala de centro esquerda do PMDB é interessantíssima", afirmou. "Também não podemos ignorar nomes como o de Mário Covas e Tasso Jereissati", completou. A admiração demonstrada pelos dois tucanos, porém, não significa o desejo de voltar ao PSDB. "Isso é impossível, porque o partido (PSDB) traiu o País em nome da prepotência do presidente."
Para Gomes, as próximas eleições servirão para o eleitorado expressar o seu descontentamento com o presidente FHC. "O povo vai se vingar deixando de votar no PSDB." Falando a empresários
pela manhã, e a estudantes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) , à tarde, Gomes disse que o PPS, apesar de pequeno é, atualmente, o único partido de oposição com propostas viáveis para um plano de desenvolvimento nacional. "Somos o partido que tem um olho em terra de cegos."

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