O Círio de Nazaré, a maior romaria católica do País, percorreu ontem 5 km em mais de oito horas e levou às ruas de Belém do Pará 1,7 milhão de pessoas, segundo cálculo da Polícia Militar. A devoção e o sacrifício dos romeiros na homenagem a Nossa Senhora de Nazaré – conduzida em sua redoma ornamentada de flores e embalada por cantos religiosos – foram prejudicados pela excessiva lentidão do cortejo. A demonstração de fé dos paraenses sensibilizou o vice-presidente da República, Marco Maciel, que se disse ‘‘muito impressionado’’ com a religiosidade e o respeito dos féis pela santa.
Devido ao calor de 40 graus e o constante empurra-empurra da multidão, 800 pessoas idosas, pagadoras de promessas, foram atendidas nos postos volantes da Cruz Vermelha, Marinha, Exército e Aeronáutica. O pescador Raimundo Ferreira Gomes, do município de Chaves, no arquipélago do Marajó, disse que seus joelhos estavam feridos do contato com o asfalto, mas se sentia reconfortado por pagar sua promessa. ‘‘Eu tinha dores de cabeça terríveis. Consultei os médicos e eles não descobriram o que eu tinha. Fiz promessa para a Virgem de Nazaré e fiquei curado’’.
PromessasCarregando uma cruz de madeira que pesava 14 quilos, o lavrador Romildo Raimundo Batista, de Pedreiras (MA), disse que estava pagando duas promessas: recuperar o emprego que havia perdido, e comprar ‘‘um sitiozinho para melhorar a vida da família’’.
O empresário paulista Domingos Langoni também pagava promessa. ‘‘A minha doença era incurável. Um amigo, que é paraense, recomendou que se eu fizesse uma promessa para Nossa Senhora de Nazaré e ficaria curado. Eu fiz e estou aqui para contar a história’’. Langoni paga sua promessa, doando água mineral para os romeiros. ‘‘Farei isso até o fim da vida’’, disse o empresário. Segundo ele, dez carretas com água mineral para ser distribuída no trajeto do Círio vieram de São Paulo.
Para o arcebispo de Belém, D. Vicente Zico, a demora este ano da procissão, que saiu às 7h da Catedral da Sé e só foi chegar à Praça do Santuário, onde se localiza a Basílica de Nazaré, por volta das 15h30, foi motivada pela decisão de manter a corda dos promesseiros atrelada ao carro que conduzia a berlinda com a imagem da santa. Ano passado, a corda foi cortada para agilizar o cortejo, mas provocou protestos dos católicos.
De acordo com cálculo do economista Roberto Sena, do Departamento Intersindical de Estudos Estatísticos Sócio-Econômicos (Dieese), este ano a média era de 10 promesseiros segurando cada metro quadrado de corda. A corda tinha 460 metros de comprimento.