Cingapura evita os porcos com medo de vírus
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Nao Nakanishi, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
Cingapura (AE-REUTERS) - O doce aroma de costeletas de porco grelhadas geralmente era sentido no ar em Cingapura, um lugar tropical com uma população predominantemente chinesa. Mas não mais. As pessoas pararam de comer porco com medo de uma doença virótica mortal que começou entre os porcos na vizinha Malásia é suspeita de ter matado um trabalhador local e ter hospitalizado vários outros.
"Não quero mais comer porco", disse um jovem empresário chinês. "Tivemos um almoço de negócios recentemente. Foi servida uma cabeça de porco e ninguém tocou nela". Há pouco tempo a Cingapura baniu a importação de porcos vivos depois de sofrer sua primeira casualidade da doença, que acredita-se ser a encefalite japonesa ou outro vírus que ataca o cérebro. Desde que a doença apareceu, 56 pessoas morreram na Malásia e o exército do país foi chamado para inutilizar 300 mil porcos. O governo de Cingapura disse repetidamente que a doença não pode ser transmitida comendo-se a carne e está sob controle, mas poucos se arriscam.
"Isso é histeria em massa", disse uma vendedora raivosa de porcos em um mercado da Chinatown de Cingapura. Ela era a única vendedora da mercadoria a ainda ter sua barraca aberta, esperando vender suas costelas de porco que sobraram. "Não posso ganhar a vida. Todos estão com medo. Ninguém está comprando. Os clientes assistem a televisão e vêem porcos sendo mortos. Até nossos amigos estão com medo", ela disse. Ao invés disso, o país se voltou para o frango, elevando o preço do produto às alturas. Chua Sin-Bin, vice-diretor de um departamento de produção primária, disse que cada cingaporeano consome cerca de 85 quilos de carne por ano, com o frango representando 56 quilos e o porco 22 quilos. Carnes de vaca e carneiro representam o restante.
Em um mercado no subúrbio de Ghim Moh, todas as barracas que vendiam porco grelhado foram fechadas, como a maioria deste tipo de loja por toda Cingapura, enquanto outras vendem de tudo desde patos de Pequim até rãs vivas. "Porco não mais, porco não mais", disse um açougueiro no mercado, apontando para algumas de suas bacias vazias. "Aqui tem frango e vaca. Ninguém come porco". A Cingapura, que não tem mais fazendas de porcos, pode ser afortunada se comparada à Malásia, onde a indústria de criação de porcos está sofrendo a perda de centenas de milhões de ringgits desde que a doença apareceu em outubro passado.
Muitos vendedores de porcos estão descontentes, assim como os consumidores que agora encontram preços muito altos dos frangos, que já têm um curto suprimento. Roy Ow, do restaurante Mum Chee Kee, reclama que durante a hora do almoço em Chinatown ele vendeu apenas quatro porções de "kway chap", outra especialidade cingaporeana feita de estômago de porco, sangue, rins e fígado. Antes ele costumava vender de 60 a 70 porções na hora do almoço. "Não é preciso se preocupar. O controle do governo de Cingapura é muito rigoroso", disse Ow, adicionando que ele come a iguaria todos os dias.
Nas barracas que vendem frango fresco, se formam longas filas. "Quando cheguei aqui havia cerca de 20 pessoas na minha frente. Ainda existia uma fila quando fui embora", disse uma dona de casa. "É como antes do Ano Novo chinês!". Outro freguês adicionou: "Os vendedores de frango estão se aproveitando de nós porque eles sabem que ninguém irá querer comer porco agora". De acordo com o jornal The Straits Times, os preços do frango no varejo aumentaram mais de 10% na semana passada, para S$4,50 (US$ 2,60) por quilo. E mais altas nos preços são esperadas conforme os estoques forem diminuindo e a demanda aumentar tanto na Malásia quanto na Cingapura. "Há uma queda da quantidade do produto em toda a região", disse um grande comerciante, que afirma que está difícil para os fazendeiros mudarem para a criação de frangos apesar das boas margens de lucro do negócio. Levará muito tempo para as coisas voltarem ao normal, se voltarem, disse o comerciante. Muitos pequenos fazendeiros na Malásia enfrentam a falência enquanto o país mata cerca de 15% de seus dois milhões de porcos. A Cingapura, com uma população de mais de três milhões, adquiria na Malásia 80% de seu suprimento de porcos. O país costumava importar em torno de 4 mil porcos vivos por dia. E compra a maioria dos frangos da Malásia, da Indonésia e da Tailândia.


