Cinegrafista amador registrou acidente; depoimentos reforçam suspeita de falha humana
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domingo, 05 de setembro de 1999
Por Mauri Konig, especial para a AE 
Foz do Iguaçu, PR, 06 (AE) - Um cinegrafista amador registrou o choque dos dois barcos que ontem (05) provocou a morte de seis turistas estrangeiros e de um dos pilotos nas proximidades das Cataratas do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR). O turista que filmou a colisão entregou o filme Sony de 8 mm ao sócio-proprietário da empresa Ilha do Sol Turismo e Navegação, o norte-americano naturalizado brasileiro Alex Peter Schorsch, que há 13 anos realiza esse tipo de passeio no Rio Iguaçu.
Schorsch repassou o filme à Capitania dos Portos do Rio Paraná, que junto com a Polícia Civil e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) está investigando as causas do acidente. Segundo a reportagem apurou, o filme comprova que um dos pilotos, Cândido Siqueira, 23 anos, fez uma manobra errada. Ele pilotava um barco de sete metros de comprimento e cruzou a frente de outro maior, de 8,5 metros e 2 5 toneladas.
O barco pilotado por Cândido tinha capacidade para 15 pessoas e transportava só nove no momento do acidente. O outro transportava 22 passageiros - três a menos que a capacidade máxima. Depois do choque ele ficou sobre as vítimas. As sete pessoas que morreram estavam na embarcação menor, inclusive o piloto. As causas das mortes foram traumatismo múltiplo e afogamento. O filme mostra, ainda, que os passageiros dos dois barcos estavam com coletes salva-vidas.
Além de Cândido, morreram no acidente os turistas portugueses Antônio Baia Patrão, 41 anos, Manoel José Saramago Areias Pereira, 48, a mulher dele, Esther Lakshimi Alves Osório Areias Pereira, 46, o casal francês Guy Andre Jean Biscay, 55, e Bernadette Madellaine Guerre Biscay, 57, e o chileno Jorge Alcazar Cruz, 54. Amanhã, os corpos dos três portugueses seguirão para Lisboa. Eles eram engenheiros e trabalhavam na companhia de energia Bandeirantes, em São Paulo. Depoimentos - Hoje o delegado do 3º Distrito Policial de Foz, Paulo Renato Caldas Araújo, ouviu pelo menos dez turistas que estavam nos barcos envolvidos no acidente. Em seus depoimentos, a chilena Marissol Andressa e o casal francês Jean Pierre Salvager e Maria Helene Salvager disseram que houve imprudência do piloto Cândido Siqueira. Eles estavam no barco pilotado por ele e sofreram ferimentos leves.
Turistas que estavam no outro barco reforçaram ao delegado a versão dos três. Com base nesses depoimentos, o delegado acredita que houve falha humana, mas vai aguardar o laudo da Marinha e do Instituto Médico-Legal (IML) para concluir as investigações. O pai de Cândido, o também piloto Antônio Siqueira, foi um dos precursores nesses passeios e disse que o filho tinha pouco preparo para assumir o controle de um barco. Cândido já trabalhava há mais de dois anos com navegação e há oito meses fazia diariamente o mesmo percurso pelo Rio Iguaçu até canyon das Cataratas.
Schorsch nega que tenha havido demora no socorro às vítimas. "Os 15 minutos gastos para chegar ao local é um tempo até curto dada as circunstâncias e o local", defende-se. Ele também assegura que os barcos tinham todos os equipamentos de segurança exigidos pela Marinha. A única dúvida, segundo o empresário, é quanto a existência de remos nas embarcações. "Numa situação como essa, os remos nem têm utilidade", justifica-se.
Imagem - O acidente com mortes ocorrido nas Cataratas pode manchar a imagem turística de Foz do Iguaçu, que segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur) no ano passado recebeu 1,6 milhão de visitantes estrangeiros, à frente de tradicionais destinos como Rio de Janeiro e São Paulo. Empresários do setor acreditam que a repercussão das mortes no exterior provocará uma retração - pelo menos momentânea - no setor.
Para o diretor do escritório local da Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), Nelson Mariani, a repercussão trará um impacto negativo para o setor em Foz, inclusive ao Parque Nacional do Iguaçu, as agências de viagens e os hotéis de luxo. Um dos impactos imediatos, segundo ele, será a diminuição do tempo de permanência dos turistas na cidade.
O diretor da agência Ortega Turismo, Famir Hamdam, também trabalham com a expectativa de retração no setor, mesmo que temporariamente. Assim como na agência dele, pelo menos 30% dos pacotes vendidos na cidade incluem o passeio de barco nas Cataratas. Já o proprietário da agência Cataratas Turismo, Júlio César, acredita que o impacto não será tão grande quanto se pensa. Segundo ele, hoje um grupo de paulistas insistia em fazer o passeio, mas não puderam porque a área está interditada desde o acidente.


