Agência Estado
De Belém
O cinegrafista Raimundo Osvaldo dos Anjos, que fez as imagens do conflito de Eldorado dos Carajás (PA), onde 19 sem-terra foram mortos em confronto com 150 policiais militares, disse em depoimento, ontem, que os primeiros tiros partiram da tropa de Marabá, comandada pelo coronel Mário Pantoja. Este foi o único depoimento, até agora, que compromete a situação do oficial, que está sendo julgado junto com o major José Maria de Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira.
No interrogatório feito pelo juiz Ronaldo Valle, ninguém acusa diretamente os oficiais de ter ordenado o confronto com os sem-terra e de ser responsáveis diretos pelas 19 mortes. Mas o cinegrafista, que estava no local do confronto no dia 17 de abril de 1996, afirmou que o primeiro tiro partiu dos policiais. ‘‘Vi os PMs atirando inicialmente para cima e depois em direção aos sem-terra, quando eles estavam avançando em direção à polícia’’.
Segundo o cinegrafista, apenas um dos trabalhadores rurais estava armado com um revólver, enquanto que os PMs usavam metralhadoras, fuzis, escopetas e bombas de efeito moral. No depoimento, Raimundo Osvaldo afirmou que os policiais estavam sem identificação, ao contrário do que haviam dito, horas antes, os três oficiais. Além disso, a testemunha de acusação contou que, ao ser detido em um ônibus por meia hora, junto com a repórter Marisa Romão, viu dezenas de PMs entrarem no veículo para pegar munição ou recarregar as armas.
A acusação vai centralizar os debates nos depoimentos de Raimundo Osvaldo e nas imagens do confronto. Na fita, há cenas que mostram policiais atirando em direção aos sem-terra e em uma parte não gravada e que aparece apenas o áudio, há pessoas gritando desesperadamente. Os advogados de defesa, ao questionarem a testemunha, acentuaram bem a parte do depoimento em que ele revela não ter visto o coronel Pantoja armado ou ordenando o avanço de sua tropa.
Outra testemunha de acusação, o motorista Pedro Alípio da Silva, que conduziu a tropa até a curva do ‘‘S’’, na rodovia PA-150, onde ocorreu o confronto, confirmou ter visto os PMs entrarem no ônibus para recarregar suas armas. Ele não soube precisar de onde partiu o primeiro tiro que gerou o conflito. Ao final de tudo, quando os policiais comandados pelo coronel Pantoja chegaram a Marabá, o oficial teria dito: ‘‘Ninguém viu nada, missão cumprida’’.
A tese da defesa continua jogando a culpa do episódio no governador Almir Gabriel (PSDB), de quem, segundo os militares, teria partido a ordem de desbloqueio da rodovia. A estratégia dos advogados foi reforçada com o depoimento do coronel Walmary Prata Carvalho, ex-integrante do Estado Maior da PM do Pará. Ele disse que a ação não foi planejada.
‘‘A PM que estava lá não poderia ter atuado na operação, já que tinham tido atritos anteriores ou eram coniventes com os sem-terra’’, afirmou o coronel. Segundo ele, uma tropa do Pelotão de Choque estava de sobreaviso em Belém e pronta para entrar em ação. Walmary afirmou que a operação, por ser complexa e oferecer riscos, teria que passar por uma análise do Estado Maior da PM, o que não aconteceu. A expectativa é que o julgamento seja encerrado hoje.

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