Cinco anos após o início da pandemia, Brasil ainda tem mortes pela Covid
O Paraná teve 16.216 novos casos registrados no ano passado, segundo os boletins da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), com 117 mortes
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segunda-feira, 17 de março de 2025
O Paraná teve 16.216 novos casos registrados no ano passado, segundo os boletins da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), com 117 mortes
José Marcos Lopes - Especial para a FOLHA 

Cinco anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar que o mundo enfrentava uma pandemia causada pelo coronavírus, em 11 de março de 2020, o Brasil ainda tem mortes registradas pela covid-19. No ano passado, segundo dados do Ministério da Saúde, o país teve 5.959 mortes, com 862.680 casos notificados pelas Secretarias estaduais.
O Paraná teve 16.216 novos casos registrados no ano passado, segundo os boletins da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), com 117 mortes. Desde que o quadro de pandemia foi declarado pela OMS, o estado teve o registro de 3.019.029 casos, com 46.773 óbitos. Em Londrina, foram 165 mil casos em 2.675 mortes. O país teve 39.221.872 pacientes infectados e 715.488 óbitos. Foram 14.785 mortes em 2023 e 74.797 em 2022.
Secretária de Saúde de Curitiba durante toda a pandemia, a deputada estadual Márcia Huçulak (PSD) avalia que as mortes registradas atualmente são de pessoas não vacinadas ou que não completaram o ciclo vacinal. “Hoje, as mortes são de não vacinados ou com o esquema incompleto. A Secretaria de Saúde de Curitiba fez um levantamento dos óbitos que ocorreram em 2024, e cerca de 85% dos óbitos registrados no ano passado eram de pessoas não vacinadas ou com doses incompletas. Já estamos com seis doses”.
Além de expor as pessoas não imunizadas a riscos, baixos índices de vacinação permitem que o vírus circule e passe por mutações, diz Huçulak. “Poderíamos ter vencido a pandemia mais rapidamente, mas tivemos tantas variantes do vírus por conta da baixa cobertura vacinal. A vacina é como um guarda-chuva. Uma baixa cobertura não consegue acabar com a replicação viral”, afirma. “O vírus sempre tenta se adaptar ao meio. A variante é uma adaptação”.
Segundo a infectologista Sonia Raboni, chefe da Unidade de Infectologia do Complexo Hospital de Clínicas da UFPR, atualmente o coronavírus está entre os três vírus mais registrados no país. “Saímos de uma situação de pandemia, de uma emergência de saúde pública, mas o vírus continua com uma alta taxa de circulação. O Brasil faz uma vigilância hospitalar por infecções graves. Se olhar essa vigilância, ele está entre os três vírus mais identificados. É um importante agente de internamento. Ele não tem um comportamento como o vírus influenza, que tem um aumento de casos durante o inverno. Ele tem períodos de aumento e redução de casos relacionados à variabilidade genética”.
Negacionismo
As duas especialistas atribuem ao negacionismo – em relação à vacina, às medidas de isolamento social e à própria pandemia – foi um dos fatores que ajudaram a elevar o número de mortes. Marcia Huçulak foi duramente criticada ao estabelecer três tipos de bandeiras em Curitiba, amarela, laranja e vermelha, que orientavam o fechamento do comércio e de outras atividades, de acordo com o número de casos registrados.
“Quanto tomávamos medidas mais restritivas, em uma semana o número de casos caía. Com o isolamento, quando a taxa caía, sabíamos que não íamos perder ninguém por desassistência”, recorda a deputada. “O painel de acompanhamento até 2022 demonstrava que sete dias (de medidas restritivas) derrubavam a curva. A cada 100 pacientes positivos, a gente sabia que em uma semana teríamos que ter no mínimo de dez a 15 leitos hospitalares e cinco ou seis de UTI. Tinha estrutura, mas não tinha estrutura humana”.
Marcia Huçulak estima que, sem interferências políticas e negacionismo, o número de mortes poderia ter ficado em torno de 500 mil em todo o país. “Eu diria hoje que se tivéssemos tido uma conduta menos ideológica e político-partidária, teríamos cerca de 500 mil mortes”. Segundo ela, a baixa cobertura vacinal levou à variante delta, mais mortal. “A delta nos derrubou. Ao invés de uma semana, a pessoa piorava em três a quatro dias, e a necessidade de abertura de leitos acelerou. Em Manaus abriam covas e não tinha mais oxigênio. Recebi uma ligação do Pazuello (Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde) desesperado, dizendo que não tinham onde por pacientes em Manaus, porque adotaram a conduta nada de isolamento de ‘vamos viver a vida’”.
Sonia Raboni, que atuou diretamente no combate à covid, diz que muitas críticas partiam de pessoas sem qualificação e que não estavam na linha de frente. “Muitas pessoas que criticavam não estavam na linha de frente. Tivemos muita interferência política e inclusive de profissionais de saúde. No começo tínhamos uma doença que não tinha o que fazer, mas no momento em que tinha a vacina continuamos atendendo um número significativo de pessoas com formas graves, porque se recusaram a vacinar”.
Demora da vacina
Em maio de 2021, durante a CPI da Pandemia, o Instituto Butantan e o laboratório Pfizer afirmaram que fizeram ofertas de vacinas ao governo brasileiro em julho e agosto de 2020, respectivamente, mas que não houve resposta. Fabio Wajngarten, que era secretário de Comunicação da Presidência durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), confirmou à comissão que o Palácio do Planalto demorou dois meses para responder à Pfizer.
A argumentação de Bolsonaro era que os laboratórios não davam garantias sobre a vacina, o que é rebatido por Márcia Huçulak. “Qualquer medicamento tem possíveis efeitos adversos. A vacina era dita experimental porque não tinha sido aplicada em massa, mas a tecnologia do RNA já estava desenvolvida em laboratório há mais de 15 anos”, diz. “Nenhum laboratório dá 100% de garantia. Os grupos antivacina usaram essas mensagens dizendo que o objetivo era matar as pessoas e que ela não fazia efeito. E havia os defensores de medicamentos ineficazes. Se a cloroquina funcionasse, não morreria ninguém em Manaus, onde tomam cloroquina porque há malária endêmica”.
A infectologista Sonia Raboni lembra que em média a cada seis meses os anticorpos vão caindo, o que exige uma nova vacinação. “Recomendamos a revacinação para aumento de anticorpos e e também para vacinas mais recentes. Por isso continuamos recomendando a vacinação. Precisa vacinar, porque o vírus ainda continua circulando e tem muita gente morrendo, principalmente idosos, cardiopatas e pessoas com doença pulmonar grave, Pessoas de mais idade têm sistema imunológico com resposta um pouco menor”.
Brasil receberá nova vacina e medicamento contra o Vírus Sincicial Respiratório
O Ministério da Saúde anunciou em fevereiro deste ano que adotou duas novas tecnologias para prevenir complicações causadas pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR), uma das principais causas de internações de bebês e infecções respiratórias graves. Será aplicada uma vacina para gestantes, que pode prevenir cerca de 28 mil internações anuais, e fornecido um medicamento para proteger bebês prematuros e crianças até 2 anos nascidas com comorbidades.
Segundo a Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), o VSR é responsável por aproximadamente 80% dos casos de bronquiolite e 60% das pneumonias em crianças com menos de 2 anos de idade. A estimativa é que uma em cada cinco crianças infectadas pelo VSR precisa de atendimento ambulatorial, e uma em cada 50 é hospitalizada no primeiro ano de vida. Entre 2018 e 2024, foram registradas 83.740 internações.
“É um grande marco”, diz Sonia Raboni, professora da UFPR e infectologista do Hospital de Clínicas da universidade. “O Ministério ainda não falou em termos de data, porque dependem do fornecimento. O mundo inteiro está implementado isso e o Brasil provavelmente vai começar pelos grupos de risco. Para gestantes a vacina já está sendo ofertada na rede privada. Assim que o Brasil fizer a compra de estoque, estará na rede pública”.
Segundo ela, a taxa de infecção do VSR é muito alta, o que pode levar a uma sobrecarga do sistema de saúde. “Ele tem uma morbidade muita alta, é o vírus que mais leva crianças menos de 6 meses de para internação. Isso vai impactar, diminuindo necessidade de leitos.
A Espanha começou a vacinar há dois anos e observou uma queda importante na hospitalização de crianças nessa faixa etária”.


