A burocracia venceu a Associação de Preservação da Cultura Cigana. Ontem, a entidade fechou as portas, porque desistiu de lutar em defesa de seus direitos. ‘‘Há seis anos estamos brigando para que o meu povo seja tratado como brasileiro e possa obter os direitos mínimos de qualquer cidadão, como conseguir uma carteira de identidade ou uma certidão de nascimento. Mas, por causa da insensibilidade do poder público, decidimos voltar a ser nômades’’, afirmou o presidente da entidade, Cláudio Domingos Iovanovitchi.
O presidente da associação acusou os poderes públicos municipal, estadual e federal de virar as costas para 600 mil ciganos que vivem no País. ‘‘Eles não têm cidadania e por isso são esquecidos, já que não são eleitores’’, reclamou. ‘‘Agora vamos ser um povo estranho que caminha errante pelo Brasil’’, afirmou.
Iovanovitchi disse que, há dois anos, a entidade vem solicitando ao Ministério da Justiça, que a sua etnia seja inclusa no Plano Nacional de Direitos Humanos, que defende as minorias do País. Os ciganos querem que o governo facilite o acesso às carteiras de identidade. De acordo com eles, o documento é negado pelos cartórios, que exigem hora e local exato para registrar as crianças desse povo nômade.
‘‘Mas o atual ministro José Gregori jamais se preocupou em ajudar o nosso povo’’, reclamou. A Folha procurou ontem o Ministério da Justiça, mas não obteve uma resposta até o fim da tarde.
De acordo com Iovanovitchi, existe um grande preconceito da sociedade brasileira. ‘‘No Paraná, tentamos conseguir verbas para preservar a arte do nosso povo, mas sempre fomos esquecidos’’, reclamou. O presidente da entidade se refere às denúncias que fez contra a secretária da Cultura, Lúcia Camargo, de favorecer outras entidades, como a que organiza o Festival de Teatro de Curitiba. O caso está sendo investigado pela Procuradoria-Geral do Estado.
‘‘Em Curitiba, estamos tentando conseguir um espaço para os ciganos acamparem, quando param na cidade. Mas isso vem sendo recusado’’, lembrou. ‘‘A nossa única saída é tentar obter ajuda via judicial, mas nosso povo optou em desistir dessa luta’’, afirmou.
Para o coordenador do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, Narciso Pires, os ciganos não podem desistir de sua luta. ‘‘A cidadania é feita com luta. Se eles desistirem, vão favorecer quem sobrevive envolto na burocracia’’, afirmou.

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