São Paulo - Uma enquete com 1.400 cientistas realizada na internet pela revista britânica ''Nature'' revela que já está disseminado na comunidade acadêmica o uso de drogas para melhorar o desempenho intelectual. Um em cada cinco entrevistados disse já ter feito uso ''instrumental'' de remédios que normalmente são usados para tratar problemas psiquiátricos.
A droga mais popular entre os cientistas, ao que parece, é a Ritalina, usada para tratar crianças com TDAH (transtorno do déficit de atenção por hiperatividade). Segundo entrevistados, ela melhora a capacidade de concentração para estudos e pode valer a pena mesmo tendo efeitos colaterais.
A enquete da ''Nature'' sobre o assunto foi iniciada no começo do ano, motivada por um artigo de pesquisadores da Universidade de Cambridge sobre aspectos socais e éticos desse novo fenômeno. A idéia do trabalho veio de um editorial da própria ''Nature'', que defende a pesquisa de drogas com propósito específico de melhorar desempenho acadêmico.
A revista -influente em praticamente todas as áreas da ciência- recebeu tantos comentários sobre o trabalho que decidiu fazer uma sondagem própria. A enquete divulgada hoje não tem valor de censo -o questionário era voluntário-, mas revela o que parece ser um fenômeno emergente na maior comunidade científica do mundo, a dos EUA (de onde vieram 70% das respostas).
Num fórum de discussão no site da revista (network. nature.com/ forums), a discussão sobre aspectos biológicos tomou o rumo esperado, com todos concordando que é preciso pesar os efeitos colaterais indesejáveis de algumas dessas drogas contra os benefícios que elas trazem a quem é saudável. Contudo, 45% dos entrevistados consideram que, independentemente da questão de segurança resolvida, precisa haver restrições.
''Talvez o fator mais polêmico seja mesmo a questão ética'', diz o neurocientista Alfredo Pereira Júnior, da Unesp de Botucatu, que entrou no debate. ''Nossa sociedade não aceita, por exemplo, o doping no esporte, porque pode haver uma certa concorrência desleal por parte de quem se beneficia da droga.'' E, para o cientista, a questão dos efeitos colaterais também não está bem resolvida, já que o mecanismo de ação da Ritalina, por exemplo, é pouco conhecido. ''O cérebro é muito complexo e mexer no balanço de excitação e inibição (dos estados de consciência) pode ser imprevisível.''
É difícil saber, porém, até que ponto a moda do dopping acadêmico pegou. Cientistas dos EUA ouvidos pela reportagem, por exemplo, disseram não ter tido contato com a prática.
''Aqui no nosso laboratório trabalhamos com compostos que estimulam a neurogênese (nascimento de novos neurônios), não com essas drogas. As pessoas aqui gostam de comer chocolate, por causa dos flavonóides, e de fazer exercício, duas coisas que têm esse efeito'', diz o biólogo Alysson Muotri, do Instituto Salk, da Califórnia. ''Pelo que sei, isso (uso de Ritalina) está mais espalhado na costa Leste dos EUA.''
O geneticista Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, diz que esse ainda não é assunto discutido com naturalidade nos corredores. ''Cientista é gente careta. Isso não seria bem visto'', diz. Para lidar com a pressão dos prazos, sua receita é outra. ''A saída que a maioria usa é a boa e velha privação de sono.''

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