Paris, 02 (AE) - Há mais ou menos um mês, furacões de uma violência inaudita sacudiram a França. E as florestas foram uma das primeiras vítimas dessa fúria dos ventos. Milhões de árvores foram derrubadas. A França é um país organizado e, já no dia seguinte, iniciou o trabalho de podar as árvores quebradas e de plantar outras novas.
Ergueram-se então muitas vozes para criticar esta diligência. Estas vozes dizem que a cólera dos céus proporcionou uma ocasião magnífica para regenerar a floresta francesa, que sofre por causa de sua perfeição, de sua elegância. Até mesmo aqueles que vão passear nos bosques aos domingos ficam penalisados por esta floresta impecável. Os bosques da França são esplêndidos, mas podem nos fazer suspeitar que tenham sido plantados e concebidos por um mestre do "design": não se vê um ramo morto. Todas as árvores são bem alinhadas. Nenhum espinheiro, nada de vegetação rasteira. Nenhum caule crescendo em terreno maninho, nenhuma acha de lenha rachada abandonada no matagal...
Para aqueles que amam realmente a Natureza, estas florestas em linha reta, elegantes como decorações de um teatro e estas árvores distintas e elegantes como "top models" são detestáveis: a Natureza, as árvores, a vegetação rasteira, as campinas nativas são o reino da fantasia, da desordem, dos caprichos, com sua sujeita, sua podridão, seus resíduos, seus odores fortes, com a morte e a ressurreição...
Para os cientistas também (e, naturalmente, para os ecologistas) estas florestas de luxo são um erro: com o passar dos anos, elas ficam anêmicas. A diminuição da biodiversidade as enfraquece.
É aí que as tempestades poderiam desempenhar um papel salvador: se se deixasse apodrecer no local uma parte das árvores caídas, seriam recriadas as condições desaparecidas: nos troncos carcomidos se instalariam as larvas de batráquios, de pequenos mamíferos em vias de extinção neste país, exageradamente asseado.
Este fenômeno já se observa nas glebas que ainda não foram renovadas pelos lenhadores.
Em algumas zonas maltratadas pela tempestade, estamos vendo instalar-se de novo um coleóptero, a Rosalia dos Alpes, de antenas estriadas de azul e prata, uma verdadeira jóia. Vemos fervilhar sob os troncos mortos, colônias de larvas que se regalam com "festins de reis". Isso vale também para os animais voadores noturnos: "ratos pelados", como o pipistrelo ou a serótino bicolo, (espécies de morcegos franceses), certas corujas e picanços, adoram aninhar-se nas cavidades das árvores. Mas as árvores são tão bem cuidadas que raramente são ocas. Daí a rarefação destes magníficos voadores noturnos. Entre os mamíferos são citados, como vítimas da elegãncia de nossos bosques, as fuinhas, os linces. Igualmente, numerosas espécies vegetais, hervas, sarças, flores silvestres. etc. só conseguem prosperar sob ramos meio decompostos e sob árvores mortas.
A idéia seria então reconstituir os bosques com prudência. Atualmente, 2,5% da floresta é protegida (protegida pelos agentes e guardas florestais) para se transformar em "reservas naturais". Os especialistas consideram esta proporção insuficiente: Especialistas do Fundo para Vida Selvagem (WWF - World Wildlife Fund) desejariam que um décimo de todos os "ecosistemas" do mundo fosse protegido).
A meta de um décimo de florestas protegidas é realista, mas se choca contra uma outra lógica: a lógica econômica. Efetivamente, se deixarmos em estado natural parcelas muito vastas de florestas, numerosos empregos da "cadeia florestal" serão suprimidos. É por isso que o WWF simplesmente fez votos para que se proteja uma parcela de 5.000 hectares na qual os homens não possam intervir. Esta iniciativa teria três méritos: seriam reconstituidas especies vegetais ou animais em extinção; os cientistas poderiam estudar "ao vivo" a verdadeira Natureza; os visitantes poderiam passear em verdadeiras florestas originais, com seus odores, sua podridão e sua desordem, em vez de percorrer florestas magníficas, tão magníficas quanto um jardim artificial ou um desfile de moda.
A idéia desta zona de 5.000 hectares protegidos da mão dos homens e dos jardineiros, ainda não foi aceita pelas autoridades. Em contrapartida, uma iniciativa foi lançada: seriam instaladas três reservas de 1.000 hectares cada: uma na planície, em torno de Fontainebleau, perto de Paris, outra na região montanhosa dos Alpes; e a terceira perto do Mediterrâneo (clima seco e quente).

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