Cientistas prevêem fim da pesca comercial
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quinta-feira, 09 de novembro de 2006
Eduardo Geraque<br>Folhapress 
Eduardo Geraque
Folhapress
São Paulo - A pesca comercial marinha do mundo inteiro pode acabar em 2048 devido à captura de peixes em um ritmo maior do que os animais conseguem se reproduzir, indica um grupo internacional de cientistas. Segundo um estudo que será publicado hoje agora, 29% das espécies de pescado já entraram em colapso -a produção delas caiu 90% em 50 anos- e deve acontecer o mesmo com outras.
Segundo a estimativa, publicada na revista Science (www.sciencemag.org), resta pouco tempo para reverter a situação e evitar o colapso total das espécies marinhas de interesse comercial.
Para chegar até a data fatídica, os cientistas abriram mão de modelos matemáticos e analisaram 32 experimentos marinhos que manipularam a diversidade de espécies em diferentes escalas. O estudo também trabalhou com dados históricos de pesca dos últimos mil anos obtidos em 12 zonas costeiras e com resultados tabulados pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) em 64 grandes ecossistemas marinhos, incluindo os da costa do Brasil.
Estou muito feliz com a metodologia. Nós usamos diferentes fontes de informação, disse Boris Worm, biólogo da Universidade Dalhousie, no Canadá, um dos autores do estudo. Mostramos que quando espécies são perdidas, a produtividade e a estabilidade do ecossistema também se perde.
Segundo Worm, não é apenas a produção de alimento (pescado ou frutos do mar) que está sob ameaça. Os ecossistemas também tendem a ficar menos protegidos às ondas de choque causadas, por exemplo, pela extração excessiva de uma determinada espécie ou mesmo pelas mudanças climáticas, assegura o pesquisador.
O fato de as espécies de peixes, moluscos e crustáceos funcionarem como cartas do castelo oceânico é conhecido dos pesquisadores. Para Silvio Jablonski, biólogo marinho da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), o estudo publicado agora torna essas relações mais evidentes.
O artigo comprova com análises de experimentos e séries de dados em diversas escalas que a perda de serviços ambientais [benefícios da natureza ao homem] e a baixa produtividade estão relacionadas à redução da diversidade, explica Jablonski. Para ele, apesar de o mar brasileiro ser rico em biodiversidade, característica encontrada nas zonas tropicais do planeta, a situação aqui está longe de ser positiva. A nossa pobreza está na capacidade de sustentar grandes biomassas de recursos, afirma.
Também para Worm, o caso merece cuidado. A costa brasileira pode ser bem produtiva. Entretanto, o manejo das espécies precisa ser cuidadoso. Deve-se ter certeza de que nenhuma espécie será perdida, disse.
No caso da sardinha brasileira, por exemplo, essa atenção não existiu. O conhecimento científico gerado recentemente pode explicar o que ocorreu com ela. Após sofrer uma pressão pesqueira intensa, parece que a espécie está suscetível às variações das condições oceanográficas. O problema tem aparecido no período da desova, segundo Jablonski. Diante desse quadro depressivo, como classificou Worm, a boa notícia é que ainda existe tempo hábil para que a situação mundial possa ser revertida.


