Washington, 09 (AE) - Uma pesquisa com camundongos sobre uma nova terapia com genes modificados em laboratório pode ter aberto o caminho para o primeiro tratamento eficaz contra o tipo mais comum de hemofilia (tipo A) e, talvez, para a própria cura dessa deficiência hereditária do sangue, que impede o processo normal de coagulação.
O estudo, realizado pelo Centro de Terapia Gênica da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte (UNC), em Chapel Hill, consistiu em juntar um clone do gene responsável pela coagulação humana - uma proteína conhecida como fator VIII que falta aos hemofílicos - a um vírus geneticamente alterado chamado AAV.
Segundo Christopher E. Walsh, o médico responsável pelo estudo
uma única injeção do vírus levou a um aumento gradual da presença do fator VIII no sangue dos camundongos, que permaneceu estável por 11 meses.
"Esse é o primeiro resultado com animais que demonstra a eficácia dessa abordagem contra a hemofilia tipo A", disse Walsh, hoje, ao apresentar os resultados do estudo ao Congresso Anual da Sociedade América de Terapia Gênica, em Washington. "O objetivo é uma dose, ou seja, que a aplicação de uma única dose desse tipo de terapia genética seja suficiente para, em termos fisiológicos, produzir a cura contra futuros sangramentos."
Professor-assistente da Escola de Medicina da UNC e diretor-clínico de seu Centro de Terapia Genética, Walsh trabalhou na pesquisa com Hengjun Chao, um pesquisador do centro. "Ainda não tenho como prever quando testaremos essa terapia em pessoas, pois estamos na fase inicial desse experimento e ainda há muito que precisa ser feito para otimizar os resultados", disse Walsh à Agência Estado. "Mas os resultados que obtivemos foram encorajadores o suficiente para nos levar a prosseguir a pesquisa com animais maiores."
A próxima fase do estudo será feita com cachorros. Walsh e Chao usarão um clone do gene fator VIII canino para reduzir as chances de o sistema imunológico do animal atacar a proteína, que vê como um corpo estranho.
Os estudos sobre terapias gênicas para o tratamento da hemofilia tipo A começaram há mais de dez anos. Uma companhia da Califórnia chamada Chiron patrocina no momento testes clínicos realizados na Universidade de Pittsburgh com um outro tipo de vírus geneticamente modificado em humanos.
A primeira aplicação intravenosa do retrovírus ocorreu dia 1º. "Nós acreditamos que há vantagens em usar o vírus AAV, mas não estamos no mesmo estágio da outra pesquisa e, por isso, não temos ainda condições de saber se o caminho que tomamos é o melhor, mas estamos confiantes", disse Walsh.
"Comparado com outros vetores virais - o retrovírus e o adenovírus -, o AAV é não-patogênico, não-tóxico e permite uma manifestação prolongada da proteína fator VIII."
Walsh e Chao disseram que tentativas anteriores de suprir a deficiência genética que causa a hemofilia, transferindo outros tipos de vírus em camundongos, resultaram em níveis mais elevados do fator VIII no sangue. Mas o efeito do tratamento não foi duradouro e comprovou ser extremamente tóxico para o fígado, que é a fonte do fator coagulante.
Os dois pesquisadores da UNC conseguiram níveis de 20% do normal em camundongos saudáveis e em camundongos criados sem o gene da proteína que permite a coagulação do sangue.
Segundo Walsh, embora os níveis do fator VIII não cheguem a 100% usando-se o vírus AAV para fazer a transferência gênica, teoricamente (os níveis obtidos) seriam clinicamente benéficos para as pessoas que têm hemofilia A. Tipicamente, estas apresentam apenas 1% do nível normal de fator VIII no sangue. Esses pacientes, que representam cerca de 80% dos 30 mil hemofílicos nos Estados Unidos, "sofrem de hemorragias espontâneas nas juntas e nos músculos e necessitam de frequentes transfusões", disse Walsh.
Ele sustenta que, se for possível reproduzir nos seres humanos os resultados da terapia de transferência gênica com o vírus AAV obtida com camundongos, os níveis sustentados de fator VIII no sangue reduziriam dramaticamente os sangramentos espontâneos e suas manifestações.
"Se os níveis de fator VIII forem mantidos constantes a 5% normal, a maioria dos pacientes não teria as hemorragias nas juntas, a artrite crônica, as deformações e outros problemas que os hemofílicos enfrentam quando chegam à casa dos 20, 30 anos", disse Walsh.
O desenvolvimento em anos recentes da técnica de clonagem dos fatores responsáveis pela coagulação permitiu a produção maciça das proteínas e de produtos sanguíneos purificados sem os riscos de contaminação do HIV e do vírus da hepatite.
Mesmo assim, o tratamento ainda é caro, chegando a custar entre US$ 3 mil e US$ 4 mil por dose, e o efeito é de apenas 12 horas. "Muitas vezes a hemorragia continua e novas doses do fator coagulante precisam ser ministradas com frequência", disse Walsh. "Essa é razão pela qual meu objetivo é chegar a uma terapia eficaz com apenas uma dose."

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