Cientistas encolhem mosca-da-fruta Da correspondente Leda Beck
São Francisco, 24 (AE) - O cientista George Thomas, há 20 anos trabalhando no Instituto Friedrich Miescher, em Basiléia, na Suíça, acaba de realizar um prodígio em laboratório: ele e mais três colegas conseguiram "encolher" uma mosca drosófila, conhecida como mosca-da-fruta.
Para isso, os cientistas isolaram e eliminaram o gene dS6K, responsável pela velocidade do crescimento das células do inseto. Os resultados, publicados na edição desta semana da revista Science, que chegou às bancas nesta sexta-feira (24), foram considerados surpreendentes.
"Tivemos três surpresas", explicou Thomas à Agência Estado na quinta-feira. A primeira: é possível manipular o crescimento da mosca, se esse gene é subtraído. A segunda: as células do inseto cresceram duas vezes mais devagar do que o normal, o que torna a descoberta um ótimo ponto de partida para a pesquisa de novas drogas no combate ao câncer (um dos problemas com células cancerosas é que elas se multiplicam vertiginosamente).
O gene em questão produz uma enzima que controla justamente a velocidade do crescimento das células. "A grande surpresa aqui", ponderou Thomas, "não é a redução da velocidade propriamente dita, mas o fato de que esse fenômeno também reduziu o tamanho das células, produzindo um organismo duas vezes menor".
Há muitos anos existe informação disponível sobre a divisão das células e sobre como o número das mesmas afeta o crescimento de um organismo, mas havia pouco conhecimento sobre o papel do tamanho da célula no mesmo processo.
A terceira surpresa foi a de que a mosca em miniatura tem exatamente o mesmo número de células do inseto normal. Sempre se soube, em biologia, que menos células produzem um animal menor; agora também se sabe que é possível criar em laboratório um animal muito menor que tem o mesmo número de células do animal grande.
Contra o câncer - É claro que, da experiência em laboratório com simples moscas ao desenvolvimento de drogas para seres humanos, há um abismo. Para começar, a exclusão do gene dS6K teve seus efeitos colaterais: as moscas miniaturas são estéreis e a maioria delas vive apenas duas semanas, em vez dos dois meses normais. Mas, nesse caso, o caminho a percorrer será substancialmente encurtado.
Quando inquirido sobre a distância entre seu laboratório e os pacientes com câncer, Thomas explicou que viaja para Washington, nos Estados Unidos, nesta semana, para participar de uma audiência pública do National Cancer Institute. O instituto norte-americano está discutindo a hipótese de utilizar o medicamento rapamicina também no tratamento do câncer e quer ouvir a opinião de Thomas.
"Essa droga bloqueia justamente a produção da enzima do crescimento e já é utilizada para a terapia pós-operatória em casos de transplantes de órgãos", explicou. "Os Estados Unidos estão começando a testar a possibilidade de utilizá-la no controle de células cancerosas e os resultados de nossa pesquisa são parte do processo de validação da droga para essa aplicação."
O elemento ativo da rapamicina, imunossupressor produzido pelo laboratório norte-americano Wyeth-Ayerst Pharmaceuticals, foi descoberto no solo da famosa Ilha de Páscoa, na costa do Chile, há mais de 25 anos. Seu próprio nome vem do município onde foi localizado: Rapa Nui.
A rapamicina é produzida naturalmente por bactérias nativas da ilha para se protegerem de um outro elemento químico, a levedura.
Ela foi aprovada em setembro do ano passado pela Food and Drugs Administration (FDA), órgão do governo norte-americano que regula a indústria farmacêutica, para impedir o sistema imunológico de rejeitar órgãos transplantados, particularmente rins. Seu nome comercial é Rapamune (Sirolimus).





