Cientistas desenvolvem vacina contra cocaína
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Yann Ollivier<br>France Presse 
Estrasburgo, França- Com uma vacina que visa a neutralizar a cocaína ou a identificação do gene da dependência, a ciência abre novas perspectivas na luta contra as drogas, despertando ao mesmo tempo importantes questionamentos éticos, segundo especialistas do Conselho da Europa.
Os 35 países do conselho, membros do ''Grupo Pompidou'' de cooperação na área da luta contra a droga, reunidos na segunda e terça-feiras em Estrasburgo para definir sua estratégia até 2010, decidiram lançar um banco de dados na internet para atualizar as pesquisas em andamento referentes às drogas e à dependência.
A perspectiva é a de ''traduzir os resultados da pesquisa em práticas e políticas'', disse Richard Muscat, professor de neurociência comportamental da Universidade de Malta e coordenador da plataforma de pesquisas do Grupo Pompidou.
No Reino Unido, os cientistas trabalham atualmente no desenvolvimento de uma vacina que ''neutraliza'' a ação da cocaína, impedindo que a droga chegue ao cérebro, através de uma molécula que se associa àquela que a cocaína libera.
Segundo este mesmo princípio, outras vacinas poderiam começar a ser utilizadas no futuro. ''A partir do ano que vem, uma vacina contra a nicotina deve entrar na fase de testes'', assegurou Muscat.
O desenvolvimento da vacina contra a cocaína coincide com a escalada de seu consumo na Europa, com os 3,5 milhões de adultos que fizeram uso da substância nos últimos 12 meses, segundo números publicados na semana passada pelo Observatório Europeu de Drogas e Toxicomanias (OEDT).
Mas enquanto os cientistas a conceberam como um tratamento de desintoxicação, a tentação de administrá-la a todo mundo em caráter preventivo é grande, o que traz sérios problemas éticos, reforçou o cientista maltês.
A genética também traz perspectivas promissoras. ''No cérebro das pessoas dependentes, parece que um dos receptores da dopamina não funciona muito bem'', assegurou Muscat. A longo prazo será possível, se não modificar este gene da dependência, pelo menos reduzir seus efeitos.
A partir desse momento seria possível submeter todas as crianças a testes para identificar as que seriam mais suscetíveis à dependência química e adaptar estratégias de prevenção, segundo sua predisposição genética, com o risco de ''estigmatizá-las'', antecipou Muscat.
A sociedade atual já se defronta, no campo da prevenção, com a discussão sobre a detecção sistemática de consumidores de drogas nas escolas, como decidiu fazer o premier britânico Tony Blair, explicou Christopher Luckett, secretário-executivo do Grupo Pompidou.
Até o momento, nenhuma pesquisa havia ''demonstrado que uma política de diagnóstico em matéria de prevenção da toxicomania era eficaz'', lembrou.
Os riscos éticos da detecção sistemática são evidentes, na sua opinião, no que diz respeito à proteção de dados e às liberdades individuais.


