Cientistas analisam efeito do celular
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de setembro de 2000
Renata Cafardo Especial para a Agência Estado 
O médico e deputado estadual Walter Feldman não usa mais telefone celular. Há três meses, começou a sentir fortes dores na cabeça e no ouvido sempre que aproximava o aparelho das têmporas. Ao afastá-lo, instantaneamente a dor passava, conta. Seguindo os conselhos de um colega neurologista, abandonou o celular e voltou a usar o velho pager.
Casos como esse, de danos à saúde decorrentes da radiação emitida pelo celular, ainda são raros e não atrapalham o mercado brasileiro de telefonia móvel, que cresceu 620% no primeiro semestre deste ano, comparado ao mesmo período de 1999.
Engenheiros, físicos, médicos e biólogos do mundo todo estudam os efeitos do celular. A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que ainda não há comprovação científica de que o aparelho prejudique a saúde. Mas também não existe certeza de que ele seja inofensivo. A entidade está elaborando estudos desde 1996 - que devem ficar prontos em 2003 - com o objetivo de esclarecer essa dúvida.
Enquanto isso, a quantidade de aparelhos celulares no Brasil cresce rapidamente. Na semana passada, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que o País atingiu a marca dos 20 milhões de telefones móveis em operação. Esse número representa mais da metade do total de telefones fixos, que é de 33,3 milhões.
O telefone vai esquentando no seu ouvido e isso incomoda muito, queixa-se o consultor Josino Garcia. Segundo o engenheiro de telecomunicações Álvaro Bártholo, há estudos epidemiológicos sugerindo que o celular possa provocar efeitos térmicos e funcionar como agente cancerígeno, mas não existe comprovação nenhuma. Ele coordena um grupo de estudo que analisa os efeitos biológicos dos campos eletromagnéticos, mantido pela Associação Brasileira de Compatibilidade Eletromagnética (Abricem).
Os cientistas do mundo todo estão tentando verificar se o efeito térmico pode afetar o cristalino do olho e causar uma catarata precoce, diz o engenheiro, que insiste que nem a catarata, nem a dor de cabeça foram ainda associadas diretamente ao celular.
E muito menos o câncer. Isso porque a radiação emitida pelo telefone celular é a não-ionizante, que, segundo especialistas, não tem a capacidade de romper cadeias de DNA. Todo câncer é resultado de uma mutação genética hereditária ou causada por fatores de risco (poluição, radiação solar, tabaco) que danificam o DNA. Todos os sistemas de energia e telecomunicações (microondas, rádio, televisão) emitem radiações não-ionizantes.
O físico Robson Spinelli Gomes, da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), lembrou outra característica da radiação não-ionizante durante seminário que reuniu estudiosos da área, na semana passada. Não é porque a pessoa usa o celular várias vezes ao dia que a radiação vai acumular. A radiação solar, ao contrário, tem efeito cumulativo. Por isso, a exposição contínua aos raios de sol é altamente cancerígena.
Uma desvantagem do celular é a proximidade entre a emissão da radiação e o receptor. Alguns especialistas aconselham o uso do fone de ouvido para deixar o aparelho mais longe da cabeça durante a ligação. Precauções como trocar o telefone de orelha e encurtar a conversa também são indicadas.
O que existe hoje são recomendações internacionais sobre os limites de exposição do indivíduo à radiação, explica Bártholo. Essas normas foram determinadas pelo Comitê Internacional para Radiação Não-Ionizante (ICNIRP), um órgão oficial que tem sede nos Estados Unidos. A Anatel traduziu as diretrizes da entidade e as adotou no País.
Os telefones celulares e as estações radiobase (torres) não podem ultrapassar esses limites. Nos Estados Unidos, os fabricantes dos aparelhos foram obrigados a colocar etiquetas nas embalagens dos produtos mostrando que os níveis de radiação emitidos encontram-se em conformidade com as normas definidas pela ICNIRP.
Como nosso sistema de telefonia celular é o mesmo dos EUA, todos os aparelhos no Brasil estão em conformidade com os limites estabelecidos, diz o engenheiro da Anatel Haroldo Motta. Segundo ele, a entidade está organizando uma regulamentação nacional com base nas diretrizes internacionais para o setor de telecomunicações.


