Salvador, 05 (AE) - Um tratamento revolucionário para câncer, com quimioterapia dirigida, deve começar a ser testado em seres humanos em dois anos. Ele atua diretamente na célula cancerosa, diminuindo os efeitos colaterais da quimioterapia no sistema imunológico das pessoas. O tratamento vem sendo desenvolvido há dez anos pelo cientista polonês naturalizado americano Andrew Schally, de 66 anos, Prêmio Nobel de Medicina em 1977. Ele está participando do 10º Congresso Mundial de Reprodução Humana, em Salvador.
Batizada provisoriamente de "bala mágica" - alusão à frase de um médico francês do século passado que esperava o aparecimento de uma "bala mágica" para atingir diretamente o tumor - , a técnica vem sendo testada em animais com efeitos excelentes, informou a mulher do cientista, a médica brasileira Ana Maria Comaru-Schally, que integra a equipe. "O câncer desaparece totalmente", disse, acrescentando que os cientistas estão estudando o nível de toxicidade da "bala mágica".
As pesquisas que permitiram o desenvolvimento de medicamentos anticancerígenos começaram quando Schally descobriu
na década de 70, os hormônios LH RH, conhecidos também como hormônios do cérebro (estudo com o qual o cientista ganhou o Nobel). Ele descobriu que o cérebro produzia hormônios responsáveis pela estimulação do hipotálamo. A partir de então, conseguiu sintetizar em laboratório análogos desse hormônios LH RH, chamados de agonistas (estimulante) e antagonistas (inibidores) do hipotálamo, controlador de várias funções no corpo humano, entre as quais a ovulação.
Como funciona - As pesquisas de Schally com os hormônios análogos apontaram para o combate ao câncer. Os análagos antagonistas do LH RH são usados, por exemplo, para o tratamento de 70% dos pacientes com câncer de próstata nos Estados Unidos. Têm apresentado bons resultados também no tratamento da maioria dos cânceres uterinos e de mama.
"Andrew conseguiu modificar a molécula do LH RH e ligou-a a um agente quimioterápico, criando um novo componente que se agrega diretamente à célula cancerosa", disse Ana Maria, explicando que ao atingir o alvo o medicamento não afeta as células sãs.
Bebês - Os análogos são usados com êxito pela equipe de Schully para melhorar a fertilização "in vitro", eliminando os efeitos coloterais. "Conseguimos bloquear a superovulação, melhorando a qualidade do óvulo fecundado", disse o cientista. O principal benefício disso é permitir o nascimento de apenas um bebê em vez de trigêmeos ou quadrigêmenos, comuns neste tipo de fertilização.
A médica brasileira não quis afirmar que o marido pode chegar à cura do câncer, mas ressalta que a "bala mágica" vai representar um avanço enorme da medicina para combater a doença.

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