Ciência tenta recriar o Big Bang
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Jamil Chade, correspondente<br>Agência Estado 
Genebra- Cientistas de todo o mundo conseguiram ontem dar o pontapé inicial para o que promete ser o maior experimento da história: recriar as condições existentes menos de 1 segundo após o Big Bang e encontrar respostas sobre as partículas elementares do Universo. ''Entramos em uma nova era para a ciência'', comemorou Robert Aymar, diretor da Organização Européia para Pesquisas Nucleares (Cern), entidade que promoveu a construção do maior acelerador de partículas do mundo, o Large Hadron Collider (LHC), ou Grande Colisor de Hádrons.
Ontem, os cientistas conseguiram fazer circular com sucesso feixes de prótons pelo anel de 27 quilômetros de circunferência contendo 9.600 ímãs cilíndricos e resfriado a -271ºC, temperatura mais fria do que o espaço interestelar. Eles admitiram que houve ''problemas'' com a temperatura dos ímãs, usados para atrair os prótons. ''Mesmo assim, conseguimos tudo isso em um tempo inesperado e superamos todas as expectativas'', explicou Steve Myers, diretor do projeto.
''Noventa e cinco por cento do que existe no Universo não é conhecido por nós. Não sabemos o que é a matéria escura nem a energia escura e pensávamos que jamais seria possível descobrir. Agora, temos uma máquina que possibilitará ter respostas'', disse Carlo Rubio, prêmio Nobel de Física nos anos 1980 e idealizador do LHC.
A perspectiva é de que os primeiros resultados das colisões sejam produzidos no fim do ano e que serão necessários meses para que os cientistas decifrem o que querem dizer. Mas o entusiasmo hoje (10) era tanto que alguns já falavam em promover as colisões em poucas semanas. Choques com baixa energia já começaram a ser programados para os próximos dias.
''Todos os resultados serão divulgados ao mundo de graça. Isso pertence à
humanidade'', afirmou Chris Smith, ex-diretor do Cern.
A reportagem acompanhou parte do processo com cerca de 500 cientistas do Cern. A cada passo correto, o grupo celebrava como em uma jogada de futebol. Porém, cautelosos, os cientistas optaram por fazer os feixes de prótons circularem pelo acelerador em etapas. ''Um erro pode colocar todo o projeto em risco'', explicou o brasileiro André Rabello dos Anjos, que trabalha no Cern.
Nas últimas horas antes da estréia, a equipe de engenheiros recebeu informações de que problemas poderiam impedir o experimento. Na madrugada, uma missão foi enviada para recalibrar componentes do LHC. ''Suamos. Hoje, milagrosamente, a máquina funcionou'', contou Verena Kein, engenheira-chefe do complexo.
Software brasileiro
O maior projeto da história conta com programas, peças e técnicos brasileiros. Uma das contribuições do País é um software que vai ajudar a selecionar os dados que serão gerados pelas colisões entre prótons.
Além disso, placas sensoriais foram construídas pelo Laboratório de Processamento de Sinais do Rio de Janeiro. ''São contribuições pequenas, mas importantes'', disse André Rabello, um dos cerca de 30 brasileiros que participam do experimento.
Segundo Lyn Evans, chefe do projeto, a relação com o Brasil nos anos 1990 era ''muito distante''. Para o atual diretor do Cern, Robert Aymar, houve uma ''mudança qualitativa'' na relação com o País desde 2005.


