Cidade merece maior divulgação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de março de 1998
Valmir Denardin 
Ney de SouzaEngenheiro civil Miguel Zydan Sória, presidente da FozturUma recente pesquisa do Instituto Brasileiro do Turismo (Embratur) com estrangeiros apontou as Cataratas do Iguaçu como a segunda atração que eles gostariam de conhecer no Brasil. A primeira é o Corcovado, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, a cidade paranaense recebe pouco espaço nas campanhas promovidas pelo órgão federal para divulgar as atrações brasileiras no próprio País e no exterior. Isso explicaria o fato de Foz ter fechado 97 como quarto pólo de atração de estrangeiros - atrás do Rio, de São Paulo e de Florianópolis.
A avaliação é do engenheiro civil gaúcho Miguel Zydan Sória, de 42 anos, presidente da Foztur (autarquia municipal encarregada de promover o turismo). Além da crítica à Embratur, na seguinte entrevista, concedida à Folha da Amizade, Sória - que mora em Foz desde 1985 - avalia a crise vivida pelo setor destinado a atender sacoleiros e aponta saídas para que a cidade receba mais turistas.
Folha - O que a Foztur está fazendo para atrair mais turistas?
Sória - Estamos divulgando a cidade de todas as formas possíveis, no Brasil e no Exterior. Os resultados já estão aparecendo. No ano passado, já conseguimos dobrar o número de eventos, com um grande esforço de captação. Empregamos menos de US$ 1 milhão no apoio a eventos e tivemos a injeção de, pelo menos, US$ 20 milhões na economia da cidade. Além disso, criamos ações em todos os sentidos: para o norte, temos o Corredor de Ecoturismo (programa de une as Cataratas, o Pantanal e a Amazônia); para o sul, já definimos o Pólo Internacional Turístico do Iguaçu (que inclui Foz, Puerto Iguazú, na Argentina e Ciudad del Este, Hernandárias, Minga Guazú e Puerto Franco, no Paraguai), que se acopla ao produto turístico chamado Mundo Jesuítico (as reduções jesuíticas do Sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai); para o oeste, atraímos turistas chilenos e peruanos e estrangeiros que chegam a esses países e, para o leste, temos o turismo econômico e a tentativa de aumentar a oferta de vôos fretados das grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio, para Foz.
Folha - Como o senhor avalia o espaço destinado a Foz do Iguaçu nas campanhas de incentivo ao turismo feitas pela Embratur?
Sória - Acho que a Embratur poderia nos dar uma atenção maior. Compreendo que faltam recursos e o País é muito grande. Mas é preciso olhar para Foz mais estrategicamente. Ela própria fez uma pesquisa e constatou que as Cataratas aparecem em segundo lugar, depois do Rio de Janeiro, na lista de lugares que o turista estrangeiro mais gostaria de conhecer no Brasil. Isso demonstra que que as Cataratas são uma marca registrada do Brasil no exterior, que precisa de mais divulgação.
Folha - Sendo o segundo destino turístico mais lembrado pelos estrangeiros, como pode ser explicado o fato de Foz ter perdido para Florianópolis, no ano passado, o posto de terceira cidade brasileira mais visitada por estrangeiros, atrás do Rio e de São Paulo?
Sória - É uma questão influenciada pela baixa divulgação de Foz no exterior. Outra explicação é que temos dificuldades de vôos para Foz. As companhias aéreas têm dado pouca atenção para esse destino. Mesmo sendo o segundo destino preferido pelo estrangeiro, não podemos esquecer que ele só virá para cá se lhe for ofertado, e em condições ideais. Foz do Iguaçu não é oferecida ao turista estrangeiro com tantas vantagens em relação a outros destinos. É uma estratégia pouco inteligente.
Folha - No ano passado, foi criado o Plano Integrado de Desenvolvimento do Turismo de Foz do Iguaçu, que prevê ações para o setor até o ano 2000. Alguma dessas propostas já foi concretizada?
Sória - Várias delas. Gostaria de destacar duas: a ação de captação de eventos e o reforço da campanha de divulgação de Foz como destino turístico. O resultado dessas ações fez com que o fluxo de turistas (que exclui as pessoas que vêm à cidade apenas para fazer compras no Paraguai, sem frequentar os atrativos turísticos) se estabilizasse. Nos últimos dez anos, verificávamos uma tendência de queda no fluxo de turistas. Em 97, constatamos que ele ficou estável em relação ao ano anterior - em torno de 1 milhão de visitantes. Já o contingente de compristas vem caindo muito nos últimos anos.
Folha - O senhor faz uma diferenciação nítida entre os dois tipos de visitante. O sacoleiro nunca interessou a Foz?
Sória Todo visitante que vem a Foz contribui para o desenvolvimento da cidade. Mas a infra-estrutura que foi criada para abrigar essas pessoas (os sacoleiros) não levou em conta o alto risco desse negócio, que começou a mudar com a criação do Mercosul. Já quem investiu para atender o turista, trabalhou com um panorama de maior segurança. Ninguém vai acabar com as Cataratas e a Itaipu por decreto.
Folha - O projeto do turismo econômico, que pretende trazer para Foz trabalhadores de renda mais baixa e estudantes, pode ser a salvação para o setor criado para atender sacoleiros?
Sória - Acredito que sim. É o projeto mais urgente, do ponto de vista social. Os hotéis e restaurantes mais simples, que atendem compristas, representam uma capacidade instalada, não um problema. Há um contingente muito grande de brasileiros com renda mensal entre seis e 12 salários mínimos (de R$ 720,00 a R$ 1.440,00), que poderia consumir o produto turístico Foz do Iguaçu. Para isso, precisamos oferecer pacotes econômicos, utilizando-se aqueles hotéis e restaurantes e o transporte por ônibus.
Folha - Já há estimativa do valor desses pacotes?
Sória - Uma estimativa grosseira que fizemos junto com o Sindicato dos Hotéis aponta que o pacote para uma família de quatro pessoas - um casal e duas crianças -, com permanência de quatro dias, duas refeições, entrada para o Parque Nacional e deslocamento nos ônibus urbanos, custaria cerca de R$ 500,00. Esse preço é extremamente competitivo.
Folha - Quais são as principais necessidades do setor turístico em Foz do Iguaçu?
Sória - Precisamos de maior ocupação dos hotéis e maior permanência do turista. Há dez anos, as pessoas ficavam na cidade entre três e quatro dias. Hoje ficam, em média, dois. O ideal seria voltar ao patamar anterior. Para isso, precisamos aumentar a atratividade, com novos equipamentos turísticos.


