As cenas de truculência da Polícia Militar em Diadema, São Paulo, e na Cidade de Deus, no Rio, exibidas pela televisão, indignaram o País e mexeram particularmente com os brios de 52 policiais militares e dos outros 30 mil moradores do município de Guaçuí, no sudeste do Espírito Santo, a 232 km de Vitória.
‘‘O que aconteceu em Diadema não é exceção, mas um costume histórico da polícia, que estamos combatendo na nossa cidade’’, garante o capitão Júlio Cezar Costa, comandante da 2ª Companhia do 3º Batalhão da PM, em Guaçuí. Há 816 dias, até sexta-feira, sem registro ou queixa de violência policial, Guaçuí dispõe de uma polícia modelo, na opinião do Secretário Nacional de Direitos Humanos, José Gregori. É a polícia interativa que deverá entrar nos debates no Congresso Nacional sobre a reformulação da segurança pública no País.
A cidade de Guaçuí tem pela sua polícia interativa, completamente informatizada, controlada e financiada pela comunidade, orgulho para a população. A experiência foi adotada como exemplo em 13 de maio de 1996 pelo Programa Nacional de Direitos Humanos do governo federal e aprovada em novembro do ano passado por uma consultoria internacional da Organização das Nações Unidas (ONU).
A experiência de Guaçuí, iniciada em 15 de agosto de 1994, começou a ser levada para outros estados, e os policiais do município capixaba treinaram seus colegas em Goiás e no Distrito Federal. Esse modelo também está sendo adotado no Sergipe, na Bahia e no Pará.
Em Guaçuí, onde 95% dos policiais são nascidos na própria cidade, a polícia interativa é controlada por um conselho interativo de segurança pública, eleito a cada dois anos e composto por 33 integrantes de diversas classes sociais, por representantes da Prefeitura e até pela Rádio Sul Capixaba FM, que cede uma hora de sua programação às terças-feiras para que o capitão Júlio Cezar Lopes possa debater com a população a segurança pública.
O policiamento ostensivo em Guaçuí é distribuído por áreas de mais de 7,5 mil habitantes em quatro serviços de atendimento à comunidade (SACs), unidades informatizadas à qual os moradores recorrem, fazem suas queixas e denúncias, ganham uma senha e em 48 horas têm uma resposta à sua solicitação. ‘‘Aqui a polícia funciona como uma empresa, que deve prestar bem o serviço à comunidade, com controle total de qualidade’’, assegura o subcomandante da Companhia de Guaçuí, tenente Giuliano Tabagiba, de 23 anos. O lema da companhia é uma frase do filósofo italiano Maquiavel: ‘‘O povo conspira com quem o protege’’.
A PM é financiada pelo conselho interativo, que destina R$ 3 mil mensais para a aquisição e manutenção de equipamentos. Além disso, cem sócios contribuem em média com R$ 900 mensais para o aparelhamento da polícia. ‘‘A comunidade aqui manda na polícia, até porque nos financia’’, assegura o capitão Júlio Cezar Lopes. Ele foi o primeiro presidente do conselho, cargo atualmente ocupado pela funcionária da Prefeitura Cláudia Rosana Moreira Alves, de 30 anos, também responsável por um projeto de reintegração e profissionalização de 150 menores carentes, entre os quais alguns infratores e prostitutas infantis.
A PM em Guaçuí, além de cuidar do trânsito e do policiamento ostensivo, faz mutirões na escola contra as drogas e distribui carteiras de identidade gratuitamente.

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