Cidade cortada por linha de trem enfrenta problemas
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sexta-feira, 23 de julho de 2004
Andréa Bordinhão<br>Equipe da Folha 
Curitiba- O aposentado Zelmiro Jacomassi diz que já cansou de tanto consertar as rachaduras que constantemente aparecem na sua residência. O motorista Alcides Rufino, além de enfrentar problema semelhante, ainda tem que ficar de olho em dois sobrinhos que brincam na rua perto de casa. Tudo isso porque o trem, que passa a menos de 20 metros das casas de uma das principais ruas de Balsa Nova, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), transita pelo local muito rápido, além de ser muito pesado. Os moradores se dizem cansados de conviver com o problema, que ainda é agravado pelo ruído.
Os trens e o problema do barulho sempre existiram, segundo os moradores da região. Contudo, a velocidade aumentou depois que a América Latina Logística (ALL) assumiu a concessão. E com o aumento da safra, as composições ganharam comprimento e peso.
Segundo um maquinista da ALL, que não se identificou por medo de retaliações, a orientação dada pela empresa é de passar no local a uma velocidade de 55 km/h. ''Essa velocidade é alta para perímetro urbano, mas é o que vem pronto no boletim de via que a ALL nos fornece'', contou.
O maquinista explicou que a velocidade é perigosa para os pedestres, mas que as rachaduras acontecem muito mais pelo peso do trem, que vem com até 130 vagões. Um trem cheio de grãos, segundo ele, pesa até 9 mil toneladas. ''Minha casa está com rachaduras. A igreja, que fica um pouco mais longe ainda não tem. Mas suja demais'', reclamou o padre José Poszwa, que tem outra queixa: muitas vezes a missa tem que ser interrompida mais de uma vez por causa do barulho do trem. Durante o pico da safra, passam até 15 composições grandes por dia no local.
O engenheiro e diretor do Sindicato dos Engenheiros (Senge) do Paraná, Paulo Sidney Ferraz, diz que no estado de conservação atual das linhas no Paraná nenhum trem, em nenhum local, poderia passar da velocidade de 40 km/h. Não existe legislação que determine a velocidade, mas existem recomendações, inclusive para áreas urbanas. Quem faz essa recomedação é Agência Nacional Transporte Terrestre (ANTT), que não retornou a ligação da reportagem da Folha.
Só quem viveu um acidente sabe o quanto os trens perto das casas são perigosos. Em 1988, Maria Alice Wolski França viu a olaria de sua família e mais seis casas vizinhas se acabarem em chamas, em Guajuvira, no município de Araucária, na RMC, depois que um trem carregado de combustível, que passava à mesma distância das casas que em Balsa Nova, descarrilou. Na época, duas pessoas morreram. O acidente aconteceu quando o transporte era feito pela Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA). O engenheiro Ferraz recorda que esse foi pior acidente com trem no Estado, mas lembra que as estatísticas de acidentes da ANTT mostra que a ALL já teve muito mais acidentes de grande porte que a RFFSA.


