Caracas, 21 (AE-ANSA) - A tragédia causada pelas chuvas dos últimos dias na Venezuela pode ser ainda maior do que demonstravam as primeiras estimativas do governo, segundo as quais o número de mortos deveria estar entre 10 mil e 20 mil. "Nunca saberemos com exatidão quantos morreram, pois, seguramente, pelo menos dez metros de lama e terra já sepultaram três quartos dos cadáveres", afirmou o diretor da Defesa Civil do país, Angel Rangel. "As mortes podem ser 10 mil, 30 mil ou até 50 mil."
Rangel informou que os maiores esforços dos socorristas estão concentrados no Estado de Vargas, perto da capital, Caracas, onde, segundo ele, "as dimensões da tragédia são imensas e povoados inteiros desapareceram".
Uma das aldeias mais atingidas foi Carmen de Uria, de acordo com Rangel. "Ali existiam 3 mil casas e agora só há 100", disse. "Se em cada uma dessas casas tivéssemos uma média de três pessoas, teríamos milhares e milhares de mortos só nesse local."
Rangel assegurou também que a força das águas que desciam dos morros em direção à costa caribenha do país arrastou muita gente para o mar.
A estimativa da Defesa Civil, contudo não é compartilhada pelo representante da Cruz Vermelha da Espanha, Javier Ureña, que ajuda na assistência aos refugiados em Caracas. "As mortes devem facilmente passar dos 5 mil, mas falar em 25 mil ou mais é um exagero", disse.
O presidente venezuelano, Hugo Chávez, que tem evitado especulações sobre a cifra final de mortos, disse que pouco mais de 350 corpos tinham sido resgatados, muitos deles irreconhecíveis. "Não é hora de especular sobre o número de mortos, mas sim de prestar assistência aos sobreviventes", tem reiterado Chávez.
Na véspera, o ministro das Relações Exteriores do país, José Vicente Rangel, afirmara que o número de mortos podia chegar a 20 mil, o que transformaria a tragédia na maior catástrofe natural da Venezuela neste século.
"Não vamos descansar antes de ter revirado casa por casa, povoado por povoado, por terra, ar e mar, em busca de sobreviventes", disse Chávez, que comanda pessoalmente uma gigantesca operação de resgate, com o uso de helicópteros, aviões e navios militares. Países como os EUA e Cuba enviaram à Venezuela equipamento e pessoal especializado para os trabalhos de resgate.
O governo estima em 200 mil o número de desabrigados. Muitos deles estão alojados precariamente em ginásios de esportes e escolas de Caracas e dos outros nove Estados mais atingidos pelas inundações e deslizamentos.
Na segunda-feira à noite, Chávez anunciou que 170 hectares de terreno pertencentes às Forças Armadas foram doadas para a construção de pelo menos 6.400 casas populares. "Vamos dar dignidade aos flagelados, em vez de abandoná-los em galpões. Adotaremos soluções estruturais", discursou.
Como solução provisória para evitar que os flagelados passem o Natal sem moradia, Chávez anunciou ainda que o Exército estava pondo à disposição deles um grande número de alojamentos militares espalhados por todo o país. Para abrir mais vagas nesses alojamentos, Chávez, um ex-militar, disse ter dispensado vários grupos de soldados para que passem o período de festas com suas famílias.

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