Tiros para o alto, bombas de efeito moral e pancadaria marcaram o confronto entre cerca de 600 trabalhadores sem-terra e 80 policiais militares do Batalhão de Choque, ocorrido na tarde de ontem no pátio externo da Secretaria de Agricultura no Recife. Pelo menos nove sem-terra sofreram ferimentos leves, entre eles o menor Claudemir José dos Santos, de 12 anos, atingido no rosto. Pela manhã, sob a coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), cerca de 250 trabalhadores - do grupo de 600 - ocuparam o pátio externo da sede no Incra reivindicando recursos para investimento nos assentamentos e agilização de mais de 100 vistorias.
Desde às 8 horas da manhã os sem-terra aguardavam, na área externa da Secretaria de Agricultura, um encontro marcado para as 11 horas com o secretário Fernando Bezerra Coelho. Às 14 horas, já impacientes, ouviram o boato de que o secretário não apareceria. Munidos de paus, algumas facas e foices, ameaçaram invadir a secretaria, mas foram impedidos pelos policiais. Teve início o conflito.
Os trabalhadores foram obrigados a ficar do lado de fora do portão, retornando ao pátio - já de forma pacífica - com a chegada do presidente da Comissão Estadual de Reforma Agrária, Bruno Ribeiro. Ele repudiou ‘‘o clima de violência’’. Por volta das 15h30, o secretário Coelho chegou e recebeu representantes do MST.
O líder regional do movimento, Jaime Amorim disse que os trabalhadores reivindicam a regularização de três áreas nos municípios de Gameleira, Cabo e Escada, na Zona da Mata Sul, remascentes de um programa estadual de reforma agrária chamado Terra e Comida. As terras estão ocupadas por 360 famílias há quatro anos. Os sem-terra esperam a intermediação do governo do Estado para que 1,1 mil famílias assentadas no Vale do São Francisco possam passar um ano sem pagar energia elétrica. ‘‘Lamentavelmente, as coisas só funcionam assim’’, afirmou Amorim, depois de encerrado o tumulto. ‘‘Primeiro tem de ter um conflito para depois eles nos receberem’’.
O comandante da operação, tenente Sérgio Cabral, negou ter havido excesso por parte da polícia. ‘‘Houve excesso deles’’, afirmou. ‘‘Eles estavam exaltados e vieram com paus e estrovengas (pequenas foices) para cima de nós’’. Para ele, a polícia apenas cumpriu o dever de zelar pelo patrimônio público. Eusébio Manoel dos Santos, 65 anos, ferido no pescoço, discorda. ‘‘Eles que usaram de ignorância’’.

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