Choque de BM com sem-terra fere 18
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sexta-feira, 26 de junho de 1998
Ayrton Centeno Agência Estado 
Um confronto ontem entre homens da Brigada Militar e sem-terra deixou 18 feridos perto do canteiro de obras da nova montadora da General Motors, em Gravataí, na Grande Porto Alegre, visitado mais tarde pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Doze sem-terra - entre eles três mulheres e um deficiente físico - e seis policiais militares foram feridos sem gravidade durante o confronto, de cerca de 15 minutos. O sem-terra Jeférson Paiva foi detido, acusado de agressão aos policiais.
O enfrentamento aconteceu por volta das 9 horas, perto da estrada RS-30, quando centenas de sem-terra - 700 de acordo com os organizadores e 300 segundo a BM - tentavam seguir para o mirante no qual FHC, o governador Antonio Britto (PMDB) e a direção da multinacional teriam um breve encontro. Os sem-terra queriam pedir a FHC o assentamento de 2.500 famílias acampadas em Viamão, cidade vizinha.
Os trabalhadores acusam a BM de soltar os cachorros e espancá-los com cassetetes. Os sem-terra reagiram jogando paus e pedras nos policiais, que usaram também bombas de efeito moral e balas de borracha. Inicialmente, o comandante do policiamento da região metropolitana, coronel Arlindo Bonete, negou qualquer incidente. Mais tarde admitiu o choque e o uso de armas. Ele argumentou que a brigada teve de agir com firmeza para evitar que os sem-terra bloqueassem o caminho da tropa, que ia para a área da GM garantir a proteção a FHC, Britto e demais autoridades.
Os policiais atiraram seus cachorros contra nós e um deles mordeu o meu pé, contou uma das vítimas, o sem-terra José Carlos Araújo, de 20 anos, enquanto esperava atendimento médico. Araújo é deficiente físico. Ele tem um defeito no pé esquerdo, que o impede de caminhar e correr. Araújo contou que, ao tentar escapar dos cassetetes e do cães, caiu e feriu também o joelho esquerdo. Os PMs meteram a cachorrada na gente, acusou outro sem-terra, Euclides da Rosa, de 36 anos, exibindo a mão direita enfaixada, logo depois de receber um curativo.
Adriana Pereira da Silva, de 18 anos, também apanhou. Queixava-se de dores no braço direito depois de ser espancada. Depois de medicada no Pronto-Atendimento Municipal, de Gravataí, ela seria encaminhada a um serviço traumatológico para fazer uma radiografia e verificar se houve fratura. Entre os manifestantes, dois deles, mordidos pelos cães, receberiam vacina anti-rábica. Outros cinco, com lesões, seriam vacinados contra o tétano, e mais quatro teriam que fazer radiografias, segundo informação do coordenador do posto médico de Gravataí, Eversen Figueiredo dos Santos, de 33 anos.
O comandante do policiamento da região metropolitana negou que os cães tenham sido soltos ou que os policiais tenham agredido crianças e um deficiente físico. Onde é que ele está? Mostrem pra mim?, desafiou.
Os sem-terra contaram que o grupo caminhava nas imediações da estrada RS-30, rumo a uma entrada do terreno da GM que ainda não fora fechada pelos policiais. Quando eles viram que a gente poderia entrar na área vieram por trás, mandando que saíssem da frente e batendo com cassetetes em homens e mulheres, contou Araújo. Só queríamos pedir para o presidente assentar 2.500 famílias que estão no acampamento de Viamão (cidade vizinha), onde já morreram quatro crianças nos últimos dias por doenças respiratórias, explicou o sindicalista Oli Vanderlei Alves, de Gravataí.
Acompanhado de Britto e pelos ministros Eliseu Padilha, dos Transportes, Francisco Turra, da Agricultura, o presidente chegou às 11h20 ao canteiro de obras da GM, onde permaneceu cerca de 20 minutos. A polícia manteve os manifestantes a 600 metros do mirante ocupado por FHC e as autoridades.


