Chirac quer que G-8 discuta segurança alimentar Do correspondente PAULO SOTERO
Colônia, 18 (AE) - O presidente da França, Jacques Chirac, colocará a questão da segurança alimentar na pauta da cúpula dos líderes das potências industrializadas mais a Rússia - o Grupo dos Oito -, que começou hoje (18) em Colônia, na Alemanha.
Na quinta-feira, o líder francês testou a idéia num encontro com o presidente Bill Clinton, em Paris. Chirac disse a seu colega americano que proporá em Colônia a criação de um órgão científico global para fazer o acompanhamento da qualidade do estoque de alimentos e autorizar o banimento de produtos nocivos ou potencialmente nocivos à saúde. De acordo com o plano francês, as recomendações do novo órgão teriam força de lei internacional e suplantariam decisões da Organização Mundial de Comércio (OMC).
Segundo seus assessores, Clinton reagiu friamente à iniciativa. Ele disse a Chirac que a criação de tal órgão introduziria um novo instrumento de protecionismo no comércio internacional e é desnecessária, pois a OMC já tem autoridade para se pronunciar sobre segurança alimentar, como fez num caso recente que envolveu queixa européia sobre carne de gado bovino americano tratado com hormônio. A disputa foi resolvida, é claro, a favor dos exportadores americanos. O presidente americano sugeriu a Chirac que a Europa siga o exemplo dos EUA e crie um órgão semelhante à Administração de Drogas e Alimentos (FDA) para garantir a qualidade e segurança dos alimentos.
A objeção americana compromete as chances de o plano francês sair do papel. Mas, nem por isso, deve fazer o presidente francês desistir de seu plano. A exemplo de outros líderes europeus, Chirac está sob enorme pressão para responder ao clamor popular por maior segurança dos alimentos. O problema, que virou notícia com a "doença da vaca louca" na Inglaterra, há alguns anos, ressurgiu recentemente com casos de contaminação de carne bovina e de aves por uma bactéria e por dioxina, respectivamente, na Bélgica. O episódio levou vários países, entre eles o Brasil, a proibir a importação dos produtos belgas suspeitos.
Esta semana, os governos da França, Bélgica e Luxemburgo baniram temporariamente a produção e venda de Coca-Cola, porque algumas pessoas passaram mal depois de tomar o refrigerante produzido numa fábrica na Bélgica. As autoridades sanitárias belgas ofereceram duas explicações diferentes. Primeiro, disseram que a fábrica teria usado bicarbonato de sódio velho, por engano. Depois, alegaram que o problema pode ter sido causado por um químico aplicado nas latas da bebida. A confusão é mais um exemplo do que a revista The Economist considera a incapacidade dos governos europeus de lidar com as crises de segurança alimentar.
Segunda a revista, a falta de respostas claras apenas aumenta a desconfiança do público e alimenta um problema que já assumiu uma dimensão política e hoje condiciona os cálculos dos líderes europeus, como mostra a iniciativa de Chirac.
Sua manifestação mais forte está hoje na hostilidade dos europeus a alimentos produzidos com a ajuda da engenharia genética. Embora não haja objeção aparente na Europa ao uso de remédios e tratamentos baseados em alteração genética, a oposição da esmagadora maioria a alimentos obtidos com a ajuda do mesmo processo já anima um vigoroso e crescente movimento de mobilização popular. Antes da doença da vaca louca na Inglaterra, cujas causas permanecem sem explicação, 25% dos britânicos viam benefícios em comidas geneticamente modificadas - ou GM, segundo a sigla já usada na Europa para identificar os alimentos produzidos com a ajuda da alteração genética, geralmente usada em produtos agrícolas para torná-los mais resistentes a pragas. Hoje, esse número reduziu-se a 1%.
Por trás da discussão, há uma disputa comercial latente entre a União Européia e os Estados Unidos. São americanas as grandes companhias agroindustriais que mais investiram na produção de safras de milho, trigo, soja e outros produtos agrícolas GM. Estes já ocupam cerca de 40 milhões de hectares de área plantada em todo o mundo, a maior parte nos EUA. Na Europa, em contraste, já se exige a identificação dos alimentos GM nas embalagens, uma prática que contribui para manter seu mercado agrícola fechado, independentemente dos méritos e utilidade do regulamento.
Nos EUA, a FDA está sob pressão, mas tem resistido a adotar o mesmo tipo de exigência. A agência reguladora americana alega que a alteração genética de alimentos em laboratório não é diferente das técnicas tradicionais de cruzamento de plantas usadas para produzir certos tipos híbridos de milho, trigo, cereais, verduras e legumes.
Como as safras GM não resultam em alimentos mais tóxicos do que os produzidos por processos tradicionais, a FDA tem frustrado a campanha pela regulamentação dos produtos GM.
Mas isso pode mudar, apesar de os americanos serem mais abertos para mudanças tecnológicas do que os europeus e sejam os que mais têm a lucrar, comercialmente, com a universalização dos alimentos GM.
Pesquisas de opinião indicam que a atitude do público nos EUA sobre esse tópico talvez derive mais de ignorância do que de convicção. De acordo com uma pesquisa recente do Centro para o Ciência no Interesse Público, de Washington, cerca de metade dos americanos acredita que não compra alimentos GM. A realidade é que 60% dos produtos disponíveis nos supermercados americanos passaram, em algum estágio, por um processo de alteração genética.





