Paris, 28 (AE) - O presidente Jacques Chirac acusou hoje (28) o primeiro-ministro Lionel Jospin de ter desequilibrado a política da França no Oriente Médio, contribuindo para aumentar ainda mais as manifestações anti-Jospin nas principais cidades da região, além de denunciar uma certa "desenvoltura" do chefe do governo que não quis explicar imediatamente suas declarações em Israel, quando classificou o Hezbolah de "movimento terrorista".
O primeiro ministro, apesar da tempestade de críticas da oposição durante todo o dia de hoje, quando foi chamado de "irresponsável" por seus adversários e de ter provocado mesmo um mal estar junto a seus próprios aliados comunistas, partidários de uma política pró- árabe, promete se explicar amanhã, durante um debate na Assembléia Nacional que promete ser dos mais inflamados.
A coabitação na França entre um presidente conservador e um primeiro-ministro socialista encontra-se na sua fase mais difícil, mas nenhum dos dois principais protagonistas, ambos imaginando uma candidatura presidencial em 2002, pode assumir a responsabilidade por uma ruptura.
Durante todo o dia de hoje , o chefe do governo evitou tratar do assunto em público, mas o presidente Jacques Chirac acabou mantendo um contato telefônico com Lionel Jospin que, segundo fonte do Palácio do Eliseu, foi "curto e seco", de apenas três minutos. Chirac lhe informou dos contatos que manteve com dirigentes árabes, principalmente libaneses, ocasião em que reafirmou que a política de neutralidade francesa não será alterada na região, uma tentativa de apaziguar a reação irada dos países árabes contra a França em diversas cidades do Líbano e na Cisjordânia.
Os dois homens têm um encontro mais longo marcado para quarta feira, antes da reunião semanal do Conselho de Ministros, presidida pelo próprio Chirac. Mesmo partidários socialistas admitem que Jospin agiu mais como candidato à sucessão presidencial e menos como primeiro ministro, o que justifica as tentativas seguidas e embaraçadas do ministro do Exterior, Hubert Védrine, de justificar as declarações do primeiro-ministro, que teria sido levado mais "pela emoção e pelo coração " ao explicar a posição de seu país na busca da paz no Oriente Médio.
Hoje, só algumas frases puderam ser pinçadas de assessores de Chirac e Jospin e elas indicam que a coabitação "a la francesa" se deteriora rapidamente, a partir dos acontecimentos da universidade palestina de Bir Zeit. "Eu não me arrependo de nada. O que Chirac vai poder me dizer? Afinal, será que os integrantes do Hezbollah são anjos?" Essas declarações estão sendo atribuídas a Lionel Jospin, logo após ter sido convocado para explicações pelo presidente.
No Partido Socialista, o clima hoje era de defesa de Lionel Jospin diante da investida da oposição e do próprio presidente Chirac, todos apoiando a decisão do primeiro-ministro de não ter atendido à "convocação sumária" do chefe de Estado. Entre os diplomatas do Quai DOrsay, as declarações de Jospin que puseram fogo no circo foram consideradas como uma "grande besteira", tendo um deles, o conselheiro encarregado de Oriente Médio, Jean Noel Poirier, acrescentado: "Isso ocorre quando não se prepara suficientemente um dossiê ".
A disposição de Lionel Jospin, segundo revelavam na noite passada seus principais conselheiros no Hotel Matignon, não será defensiva, mas pelo contrário, se necessário, passar para a ofensiva enfrentando não só a oposição conservadora, mas principalmente o presidente da República nessa primeira grande disputa, cujo horizonte é a disputa pela sucessão presidencial de 2002.

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