China, terra de contrastes, celebra meio século de comunismo
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quarta-feira, 29 de setembro de 1999
Por Elaine Kurtenbach 
Pequim, 30 (AE-AP) - Cinquenta anos depois que Mao Tsé-tung, do alto da Porta da Paz Celestial, proclamou a República Popular
a China continua sendo uma nação de contrastes: pobreza e riqueza, mudança e continuidade, ordem e caos.
Cinquenta anos é um piscar de olhos na imensa história chinesa. Mas as décadas de regime comunista desde 1º de outubro de 1949 a transformaram talvez mais do que qualquer outro período semelhante de sua história.
Para muitos de seus 1 bilhão e 250 milhões de habitantes, o aniversário desta sexta-feira é digno de comemoração. A vitória de Mao unificou o país, pôs fim a um século de guerra civis e espoliações por potências estrangeiras. As reformas de mercado, iniciadas há 20 anos, têm elevado o nível de vida de muitos.
Em Pequim, Xangai e outras cidades, selvas de arranha-céus, rodovias modernas, elegantes centros de compras e luxuosos edifícios residenciais são testemunho da nova riqueza. As ruas das cidades estão repletas de carros, que têm substituído as bicicletas, as máquinas de costura e os relógios como símbolo de prosperidade.
No campo, o coração da revolução de Mao, existem fábricas por todos os lados. Ao seu redor erguem-se sólidas casas de tijolo de dois andares com cobertura de telhas, construídas por camponeses liberados das comunas estatais para semear a terra e vender a colheita.
Mas a prosperidade não é para todos. Milhões de trabalhadores, acostumados a ter serviço, habitação, educação, atendimento médico e aposentadoria desde o berço até o túmulo ficam entregues à própria sorte à medida que as empresas deixam de receber fundos do Estado.
Agricultores de regiões remotas e estéreis como a parte ocidental da província de Quinghai sobrevivem apenas com as esmolas do Estado. Em muitas aldeias, ao dissolver-se a comuna, desapareceram os "médicos descalços", enfermeiros que propiciavam um atendimento rudimentar. Na falta de fundos estatais, as escolas cobram taxas que os camponeses não podem pagar; muitas garotas não vão à escola.
Ao serem flexibilizados os controles sociais, milhares de camponeses emigram para as cidades em busca de trabalho. Esta mão de obra alimentou a indústria da construção que transformou Pequim. As mulheres mais velhas permanecem no campo para criar os filhos e cultivar a terra. As jovens vão trabalhar em fábricas ou como domésticas.
Os habitantes da cidade culpam essa "população flutuante" pelo aumento da delinquência e excesso populacional.
O abuso de drogas, a prostituição, o sequestro, a criminalidade, a superstição, as seitas, ou seja, os problemas da sociedade anterior a 1949 que Mao reprimiu implacavelmente, voltam a florescer.
Diante do crescimento brusco do desemprego urbano e rural, com uma economia crescendo mais lentamente, as autoridades tratam de colocar limites ao caos.
"Sem o Partido Comunista não haveria uma nova China", dizem os hierarcas. Herdeiros da revolução de Mao, seu poder se baseia na capacidade de manter o controle e criar prosperidade. Mas o poder quase absoluto tem gerado uma corrupção generalizada.
O comunismo é um ideal nebuloso de gerações anteriores; a ideologia atual do Partido Comunista é uma mescla de patriotismo e nacionalismo. A recuperação de Taiwan, separada da pátria-mãe em 1949, é uma missão sagrada.
As críticas ao partido estão proibidas. Os chineses gozam de uma liberdade inédita para escolher seu estilo de vida e seu trabalho, mas a dissidência política pública é ferozmente castigada.
A maioria dos chineses é politicamente cautelosa. Os mais velhos, veteranos de virulentas campanhas políticas, sabem manter a cabeça baixa.
Os jovens se interessam mais pelo trabalho, a roupa, em desfrutar a vida. O próximo meio século da China será deles. Parece apropriado que este novo período comece na véspera de um novo milênio.


