China mescla tolerância e repressão religiosas Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 21 (AE) - Há duas semanas, um rapaz tibetano chegou a Dharamsla, na Índia, onde reside o dalai-lama no exílio. Esse rapaz, de 14 anos, chama-se Ugyen Trinley Dorje e é o 17º karmapa, o terceiro dignitário mais importante da hierarquia tibetana, depois do dalai-lama e do panchen-lama (embora não se saiba qual é o verdadeiro, pois existem dois panchen-lamas, um de Pequim e outro do dalai-lama).
A fuga rocambolesca deste adolescente através de montanhas de 5.000 metros de altitude foi inicialmente tratada em tom de brincadeira, como um capítulo de "Tintin no Tibete"...
Foi um erro. A irritação dos chineses depois desta fuga atesta que nos encontramos diante de um dos problemas nevrálgicos da política de Pequim.
Nos dias que se seguiram, vimos uma extraordinária "caça ao lama" por parte dos chineses. E, depois de alguns dias, Pequim anunciou que um novo lama havia sido encontrado, um novo "Buda vivo", de dois anos de idade, Soinam Pucog. Este minúsculo Buda pertence a uma outra variedade: é um reting-lama, que tem a vantagem de poder agir, se for o caso, como regente do próprio dalai-lama.
Para encontrar este bebê, Pequim não poupou gastos nem esforços: um grupo de pesquisadores explorou o Tibete, desde a caverna ao celeiro, percorreu 23.000 quilômetros, testou 750 crianças, submetendo cada uma delas a provas subtis, complicadas e misteriosas: por exemplo, reconhecer, por adivinhação, objetos que haviam pertencido ao reting-lama anterior.
Esses burocratas comunistas certamente são dignos de admiração. Podemos imaginar estes funcionários habituados ao estudo de Marx, Engels e Mao Tsé-Tung, revisando ansiosamente os manuais esotéricos da teologia tibetana, a fim de não cometer nenhuma falha na escolha do lama.
Podemos apostar, além disso, que esta "reciclagem" metafísica dos funcionários de Pequim lhes terá feito bem. Eles tornaram-se imbatíveis na ciência da "roda das almas" ou na ciência, ainda mais refinada, dos "ciclos de reencarnação".
A confusão provocada pela fuga do karmapa não é insignificante. Sobretudo se cruzarmos esta informação com outras notícias novas sobre religiões na China. Pequim acompanha com uma paixão de feiticeiro tudo o que se refere aos deuses: o Deus único, como o da Bíblia, o do Corão, ou os inúmeros deuses, como os dos tibetanos.
As administrações chinesas agem em todas as frentes ao mesmo tempo: acabam de entronizar cinco bispos católicos em Pequim, num violento desafio ao Vaticano. Um dos dignitários do regime, Ismail Amat, que é muçulmano e representa os muçulmanos chineses do Leste do país, advertiu duramente as "forças hostis do estrangeiro" que utilizariam o Islamismo contra Pequim. Conhecemos emfim a verdadeira guerra lançada contra esta poderosa seita mística, Falun Gong, que entretanto se funda na tradição chinesa.
Em todos estes casos, a estratégia é a mesma: por uma parte, instalam-se hierarquias religiosas submetidas às ordens de Pequim (lama, bispos, dignitários protestantes, etc...) e, ao mesmo tempo, persegue-se. Em julho passado, por exemplo, o Partido Comunista lançou uma "caça às bruxas" contra os cristãos da "Igreja subterrânea".
Esta ebulição religiosa atesta uma evolução do dogma de Pequim. Nos primeiros tempos da revolução sob Mao Tsé-Tung, a repressão contra as religiões foi total e encarniçada. O "materialismo científico" reinava e eram erradicadas todas as superstições (religiões ou seitas).
Mas, há 20 anos, tudo mudou. Certamente o marxismo, o materialismo, constituem sempre a espinha dorsal do regime, mas trata-se mais de um rito, de um hábito, de uma rotina morta e bastante enfadonha do que de uma ardente filosofia política.
Além disso, como "nem só de pão vive o homem", as religiões se infiltraram no espaço deixado em aberto pelo marxismo. Pequim compreendeu o perigo.
Uma segunda estratégia foi colocada em ação: não mais impor o ateísmo e destruir as religiões, mas conceder a liberdade da fé, com a condição de que as religiões estejam sob o contrrole político. Daí estes bispos nomeados por Pequim, estas corridas em busca de lamas, etc.
Estas intervenções de Pequim nas religiões se multiplicam rapidamente. Podemos concluir que o sucesso de diferentes religiões preocupa seriamente os aborrecidos herdeiros do materialismo cientítico. Daí esta nova linha: uma mescla de tolerância aparente e de terríveis repressões.





