China faz propaganda enquanto tibetanos lembram levante
DHARAMSHALA, Índia, 10 (AE-REUTERS) - Milhares de exilados tibetanos promoveram hoje (10) um protesto contra o domínio chinês de sua terra no Himalaia, e o líder espiritual deles conclamou pelo fim da desconfiança entre seu povo e Pequim.
O Dalai Lama, num discurso marcando o 40º aniversário de um abortado e sangrento levante contra as tropas comunistas, garantiu à China que não está buscando a independência do Tibete e pediu por negociações para se estabelecer uma "genuína autonomia".
Mas a China intensificou uma campanha de propaganda contra o prêmio Nobel da Paz de 1989, e alardeou a melhoria do padrão de vida no Tibete sob o regime do Partido Comunista.
O Diário do Povo publicou comentários da maior autoridade no Tibete, Raidi, classificando o líder budista de "separatista" e "leal instrumento usado pelas forças antichinesas".
A edição para o exterior do jornal acusou-o de tentar "provocar distúrbios e atividades terroristas", e defendeu as reformas chinesas que seguiram-se ao sangrento levante.
"A sociedade tibetana antes da reforma democrática era mais obscura e mais cruel do que o sistema de servidão da Europa na Idade Média e pode ser dito que era uma das mais sérias violadoras dos direitos humanos do mundo", escreveu.
Fotografias e legendas numa mostra em Pequim retratavam um território transformado em 40 anos de uma atrasada sociedade rural escravagista para uma sociedade próspera, educada e moderna.
Críticos do regime chinês dizem que Pequim tem destruído sistematicamente a cultura tibetana e torturado monges e monjas que apóiam o Dalai Lama. Eles afirmam que ondas de imigrantes chineses transformaram a capital, Lhasa, numa monótona cidade de aparência chinesa.
Um empresário ocidental que visitou Lhasa na semana passada disse que havia "policiais em todas as partes" vasculhando a cidade em busca de potenciais agitadores.
Outro viajante que esteve em Lhasa na segunda-feira afirmou que os soldados estavam com uniformes antimotim e que oficiais de segurança visitaram quartos de hotéis de turistas estrangeiros.
Autoridades para refugiados em Katmandu disseram que a segurança havia sido reforçada na fronteira da China com Nepal, um ponto de cruzamento para milhares de tibetanos que fogem pelo Himalaia todos os anos.
O Dalai Lama, de 63 anos, enfrentou chuva e ventos para fazer seu discurso de aniversário em Dharamshala, a estação montanhosa indiana para qual ele fugiu e onde estabeleceu um governo no exílio.
Ele disse que apoiava uma posição de "meio termo": conversações levando à autonomia sob o regime chinês que poderia preservar e promover a integridade cultural, religiosa e linguística do Tibete.
"Uma solução justa para a questão do Tibete permitirá que eu dê completa garantia de que usaria minha autoridade moral para persuadir os tibetanos a não buscarem a separação", afirmou.
Mas alguns de seus seguidores em Dharamshala disseram que não aceitam apenas uma autonomia e querem que duras ações acompanhem pedidos verbais.
"Nosso objetivo é a completa liberdade e o povo tibetano não vai aceitar qualquer coisa menos do que isto", afirmou Tseten Norbu, prsidente do Congresso da Juventude Tibetana.
Estudantes vestindo o tradicional robe "chupa" deram início às celebrações cantando o hino nacional e muitos visitantes usavam uma bandana verde com as palavras "Tibete Livre" escritas nela.
Depois do discurso, cerca de 5.000 exilados, incluindo monjes e monjas, marcharam pelas estreitas ruas de Dharamshala gritando slogans e carregando bandeiras.
Mais de 2.400 tibetanos promoveram uma passeata em Nova Délhi para protestar contra a "ocupação ilegal" do Tibete e pediram para a comunidade internacional ajudá-los a reconquistar sua terra-natal.
Um número ainda maior saiu às ruas da capital do Nepal, o reinado do Himalaia que abriga cerca de 16.000 refugiados tibetanos.
Policiais reprimiram alguns tibetanos depois de uma missa em Katmandu. Um repórter de Pokhara, 200 km a oeste da capital, disse que policiais usaram cassetetes para dispersar manifestantes antichineses.
Em Paris, dois alpinistas desfraldaram a bandeira do Tibete em cima da catedral de Notre Dame, e abriram uma faixa com os dizeres: "Nações Unidas - Justiça".





