Pequim, 10 (AE-AP) - A China rompeu nesta segunda-feira (10) os laços militares e outros contatos com os Estados Unidos e exigiu que os responsáveis pelo ataque da Otan contra sua embaixada na Iugoslávia sejam severamente punidos. Estudantes arrastaram um boneco vestido como um soldado norte-americano na frente das embaixadas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha no terceiro dia de protestos.
A polícia permitiu aos manifestantes se reunirem em grupos e dispersou curiosos. Manifestantes exigiam que "uma dívida de sangue seja paga com sangue".
Estudantes arrastavam e chutavam um boneco vestindo um uniforme norte-americano e com uma bandeira dos EUA no peito.
A China rompeu contatos militares de alto nível com os Estados Unidos nas questões de proliferação de armas, segurança internacional e direitos humanos.
Este é um dos momentos mais complicados nas relações entre Estados Unidos e China em 20 anos. O Ministério de Relações Exteriores da China não informou quando os contatos poderiam ser retomados.
O ministro do Exterior Tang Jiaxuan telefonou para o embaixador norte-americano James Sasser para apresentar as exigências e criticou os ataques como "uma viciosa invasão da soberania da China", informaram a embaixada e a mídia estatal.
Tang pediu uma desculpa "aberta e oficial" ao governo e povo chinês e aos parentes dos três jornalistas mortos no ataque da sexta-feira em Belgrado. Ele também disse que os Estados Unidos deveriam investigar o ataque, tornarem público os resultados e "punir severamente os responsáveis".
A secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright, disse que a Organização do Tratado do Atlântico Norte daria uma explicação completa à China. Ela acrescentou que as declarações de autoridades chinesas indicavam que os protestos antiamericanos em Pequim contavam com a aprovação do governo.
Cercado no complexo da embaixada pelos manifestantes, Sasser recusou-se a se encontrar pessoalmente com Tang no Ministério do Exterior.
Dezenas de milhares de manifestantes, estimulados pelo governo
marcharam em 20 cidades chinesas nos últimos três dias, nos maiores protestos desde as manifestações pró-democracia da Praça da Paz Celestial, em Pequim, há 10 anos.
As emoções dos manifestantes foram inflamadas por reportagens divulgadas pela mídia estatal de que o ataque contra a embaixada chinesa que causou a morte de três jornalistas foi deliberado.
"Como vocês podem ser tão sem-vergonha? Saiam da China, açougueiros americanos!", dizia um slogan pichado por manifestantes em uma cerca em frente à Embaixada dos Estados Unidos.
O presidente norte-americano Bill Clinton pediu novas desculpas nesta segunda-feira pelo bombardeio, considerando-o "um trágico engano isolado". Funcionários norte-americanos disseram que a culpa foi de informações erradas passadas por planejadores de alvos da CIA, a agência de informações dos Estados Unidos. "Eu peço desculpas. Eu lamento isto", disse Clinton.
A suspensão de contatos com os Estados Unidos representaram um golpe contra a política externa de Clinton. Sua administração repetidamente citou diálogos sobre direitos humanos, controle de armas e outras questões como prova de que sua política em relação à China estava produzindo frutos.
As reuniões suspensas cobriam preocupações de que a China teria oferecido armas nucleares ou tecnologia de mísseis para o Paquistão, Irã e outros países.
A China suspendeu contatos semelhantes com Washington durante uma confrontação sobre Taiwan em 1995 e 1996 - um dos períodos mais tensos desde o estabelecimento de relações diplomáticas.
A China diminuiu de importância mas não cancelou uma visita na quarta-feira do chanceler alemão, Gerhard Schroeder. O enviado da Rússia na crise da Iugoslávia, Viktor Chernomyrdin, chegou hoje em Pequim a fim de conversar com líderes chineses.
Assessores disseram que ele deveria encontrar-se amanhã com o presidente chinês Jiang Zemin e o primeiro-ministro Zhu Rongji. Chernomyrdin criticou o bombardeio contra a embaixada, mas insistiu que isso não deveria desnortear os progressos rumo à solução da crise de Kosovo.
A abrupta decisão de enviá-lo a Pequim veio após o presidente Boris Yeltsin conversar por telefone com seu colega chinês Jiang Zemin. "Os líderes de ambos os Estados discutiram a situação na Iugoslávia em detalhes e sua maior gravidade deve-se à atuação bárbara da Otan, que causou vítimas fatais entre cidadãos chineses que trabalhavam em Belgrado", dizia um comunicado do gabinete de Yeltsin.
O Conselho de Segurança da ONU marcou uma reunião para a noite de hoje para considerar o pedido da China para uma forte condenação do bombardeio da Otan contra a embaixada chinesa em Belgrado e uma investigação por parte da ONU.
Sasser e outros oficiais americanos estavam no interior do prédio dos EUA cercados por centenas de policiais com uniformes antimotim. Milhares de manifestantes marchavam e paravam para gritar frases e jogar pedras, como fizeram sábado e domingo.
A imprensa estatal chinesa ajudou a criar o clima para a ira pública, com uma cobertura do conflito de Kosovo que ignorou as atrocidades iugoslavas e teve um tom antiamericano.
Ao invés de conter a violência, a polícia guiou os protestos - direcionando a passeata, bloqueando ruas próximas e mantendo jornalistas estrangeiros a distância. Autoridades chegaram a colocar estudantes em ônibus com destino ao bairro onde se localiza a embaixada.
Depois de limpar as ruas nas proximidades da embaixada dos EUA na manhã de hoje, a polícia começou a permitir que grupos de manifestantes voltassem para o local. As manifestações foram mais organizadas e menores.
Enquanto Sasser dizia que "a situação estava de algum modo estável", manifestantes gritavam "Acabem com os Ianques!" e atacaram a embaixada com pedras.
Manifestações, realizadas principalmente por chineses, também ocorreram em Tóquio, Moscou e Israel. Na capital paquistanesa de Islamabad, a polícia utilizou gás lacrimogêneo e bloqueou ruas para evitar que 200 manifestantes chineses chegassem à Embaixada dos Estados Unidos.
Em Shangai, a polícia agiu em uma ameaça de bomba em um prédio de escritórios que abriga companhias estrangeiras e enviou um esquadrão antibombas e cães farejadores. Um funcionário do edifício disse que nada foi encontrado.
O Departamento de Estado norte-americano lançou um alerta para que os cidadãos do país adiem viagens à China "até que a situação se estabilize". O órgão ordenou seus diplomatas a ficarem em casa e aconselhou outros americanos para que façam o mesmo.

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