China exige desculpa completa dos EUA enquanto protestos entram no 4º dia
Pequim, 11 (AE-AP) - A mídia controlada pelo governo informou pela primeira vez nesta terça-feira (11) o público da China sobre as desculpas dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo bombardeio da embaixada chinesa na Iugoslávia, mas a China repetiu sua exigência de uma investigação e consequente punição dos responsáveis.
Centenas de pessoas passaram em passeata pelas embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha gritando slogans no quarto dia de protestos, apesar de as manifestações terem sido menores e mais controladas.
Alguns jogaram pedras, mas a polícia tentou desencorajá-los. Eles retiraram pedras soltas de pavimentação das vistas e pediram a alguns manifestantes para largarem seus projéteis.
A polícia colocou-se no cruzamento onde começam os protestos permitidos pelo governo selecionando quem poderia continuar e afastando outros. Depois do anoitecer, eles fecharam o caminho. A polícia dispersou manifestantes que surgiam tentando chegar perto dos prédios.
O embaixador norte-americano James Sasser, cercado dentro da embaixada do EUA, considerou que os controles da polícia eram uma melhoria, mas disse que as tensões não aconselham que ele saia.
Ele advertiu que a volta a Pequim nesta quarta-feira das cinzas dos três jornalistas chineses mortos no bombardeio poderá deflagar mais protestos.
"Amanhã será um dia crítico", disse Sasser à Associated Press numa entrevista por telefone.
O presidente Jiang Zemin, em seus primeiros comentários diretos sobre os protestos, classificou o ataque da Otan de sexta-feira contra a embaixada uma "provocação a todos os 1,2 bilhão de chineses".
"Nos últimos dias, o povo chinês tem usado de protestos, encontros, declarações e toda sorte de método para expressar sua mais intensa indignação. Isto mostra o fervor, a vontade e a força do grande espírito patriótico do povo chinês", disse Jiang ao enviado russo Viktor Chernomyrdin, segundo a mídia estatal.
Jornais publicaram notícias do pedido de desculpas que o presidente dos EUA, Bill Clinton, fez na segunda-feira na Casa Branca. Os telejornais da hora do almoço mostraram um videotaipe de Clinton dizendo que ele havia pedido desculpas a Jiang. O secretário-geral da Otan, Javier Solana, também foi mostrado se desculpando, e a notícia incluiu uma lista de governos da Otan que lamentaram o bombardeio.
A mídia estatal também divulgou pela primeira vez hoje que a secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, visitou a embaixada chinesa em Washington no sábado, apresentando desculpas e prometendo completa explicação.
Anteriormente, o fato de toda a mídia controlada pelo governo não ter divulgado os pedidos de desculpas e condolências dos EUA e da Otan inflamou os manifestantes, que disseram acreditar que o ataque havia sido intencional.
A Otan tem dito que confundiu a embaixada com uma instalação militar iugoslava e culpou informação incorreta oferecida pelos planejadores de alvos da CIA.
Depois de encorajar os protestos por dias, o governo chinês começou a tentar abafá-los hoje, colocando cartazes nas universidades de Pequim pedindo aos estudantes para permanecerem nos campus. Nos pôsteres colocados na segunda-feira era dito que os estudantes poderiam fazer reuniões de protestos mas deveriam então voltar aos estudos.
Enquanto elogiando os protestos, Jiang disse: "Estudar mais, trabalhar mais... Para ser forte e responder de forma concreta à barbárie da Otan".
Autoridades da China afirmaram que querem uma desculpa formal de Washington e da Otan e repetiram exigências de que seja feita uma completa investigação e que os culpados sejam punidos.
"Eles foram tão indiferentes. Eles simplesmente dizem: Bem, sentimos muito. Então eles balançam os ombros e vão embora", afirmou o embaixador chinês em Washington, Li Zhaoxing, na CNN.
"Até agora não vi nenhum sinal de disposição da Otan, liderada pelos EUA, de trazer as pessoas responsáveis por esta atrocidade à justiça", acrescentou.
O porta-voz do Ministério do Exterior Zhu Bangzao disse: "Descrever isto de forma menor como um erro não pode de forma alguma ser convincente". Ele afirmou a repórteres que autoridades chinesas registraram a desculpa e estavam esperando novos sinais.
Na segunda-feira, Pequim suspendeu laços diplomáticos com Washington nos campos de direitos humanos, relações militares, controle de armas e proliferação de armamentos.
Jiang reuniu-se hoje com Viktor Chernomyrdin, que tenta persuadir a China a não bloquear uma resolução no Conselho de Segurança da ONU com a qual a Rússia e as sete potências mais industrializadas concordaram na semana passada.
Mais tarde, Chernomyrdin afirmou a jornalistas que os dois lados concordaram que os bombardeios contra a Iugoslávia têm de ser suspensos antes que possam ser realizadas negociações de paz. Mas ele também disse que é necessário levar à frente os planos do G-8 de retirada das forças iugoslavas de Kosovo e o envio de uma força de segurança internacional para a região.
Protestos pelo bombardeio da embaixada chinesa ocorreram em pelo menos 20 cidades da China. O consulado norte-americano na cidade ocidental de Chengdu foi danificado durante o fim de semana por fogo e a residência de Sasser foi apedrejada.
Mais protestos ocorridos hoje visavam à embaixada norte-americana. Muitas pessoas, gritavam slogans enquanto passavam pela Embaixada da Grã-Bretanha, que fica na rota do protesto.
Sasser disse que manifestantes jogaram ontem uma bomba de mau cheiro e quatro bombas de gasolina, além de um deles ter escalado uma cerca. Este foi pego pela guarda da embaixada e entregue à polícia, contou Sasser.
"Eles estão realmente nos triturando", disse Sasser. Mas ele esperava mais tranqulidade esta noite e acrescentou: "Nós devemos ir para a cama cedo e ter uma boa noite de sono."
Amanhã, as bandeiras situadas nos escritórios diplomáticos dos Estados Unidos na China serão hasteadas a meio pau em um "específico gesto de respeito", disse o porta-voz da embaixada Bill Palmer. O rebaixamento da bandeira é uma frequente exigência dos manifestantes.





