China e EUA definem fim de barreiras Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 15 (AE) - Depois de seis dias de negociações, os governos dos Estados Unidos e da China assinaram nesta segunda-feira (15) um histórico acordo de liberalização econômica que abre as portas da Organização Mundial de Comércio para a mais importante e populosa nação emergente.
O acordo, firmado em Pequim pelas ministras de comércio exterior dos dois países, Charlene Barshefsky e Shi Guansheng, prevê, num prazo de cinco anos ou mais, a eliminação de subsídios à exportação e a redução de 23% para 17% da tarifa média de importação que a China aplica a produtos norte-americanos.
Ele contém também outras concessões graduais de maior acesso de bens e serviços de empresas dos EUA nos setores automobilístico, bancário, de seguro, de telecomunicações e Internet e no mercado de cinema. Os chineses concordaram também em cortar as tarifas a produtos agrícolas para a faixa dos 14% e introduzir um sistema de quotas para produtos para trigo, milho, arroz e algodão.
Numa concessão que poderá, no futuro, beneficiar os produtores brasileiros de soja, Pequim aceitou privatizar a comercialização do óleo de soja, hoje nas mãos do estado.
Em troca, a China realizará o projeto que perseguiu nos últimos 13 anos de receber o reconhecimento internacional e assegurar o acesso de seus produtos em outros mercados tornando-se membro do sistema de leis e regras que governa o comércio mundial.
No caso específico do acordo com Washington, o benefício adicional é tornar-se oficialmente um país com relações normais com os Estados Unidos, o que livrará a China do ritual anual de renovação de seu status comercial no Congresso, que nos últimos anos só dificultou o diálogo entre os dois países.
A entrada formal da China na OMC ocorrerá no prazo de um ano, previu Shi Guansheng. Ela informou que Pequim pretende avançar ou concluir o quanto antes as negociações com outros países ou grupo de países membros da OMC sobre os termos de seu ingresso na organização.
O presidente da União Européia (UE), Romano Prodi, é esperado na capital chinesa nos próximos dias para retomar consersações já iniciadas. A China precisa também negociar com Japão, Austrália, com seus vizinhos asiáticos e com outros países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil.
O acordo com os EUA garante, porém, uma importante presença simbólica da China na reunião ministerial da OMC em Seattle, dentro de duas semanas, que deve lançar mais uma rodada global de negociações para a liberalização do comércio. "Eu disse muitas vezes que não seremos uma organização mundial de comércio enquanto a China não se juntar a nós", festejou o diretor-greal da OMC, o neo-zelandês Mike Moore.
Empresários dos dois países também comemoraram o entendimento. Em Ancara, primeira escala de uma viagem de uma semana que faz à Europa, o presidente Bill Clinton disse que o acordo assinado em Pequim "abrirá a economia da China e criará oportunidades sem precedentes para os agricultores americanos, os trabalhadores e as empresas para competir no mercado do país, ao mesmo tempo em que trará maior prosperidade ao povo da China".
O déficit comercial dos EUA com a China, projetado em US$ 60 bilhões este ano, é um dos argumentos que o presidente americano usará para convencer o Congresso a aceitar o acordo. Mas o fato de Clinton ter recusado um acordo com base nessas mesmas concessões, que a China ofereceu durante visita a Washington de seu primeiro-ministro, Zhu Rongji, em abril passado, garante que a administração terá de organizar um intenso trabalho de lobby no Congresso.
E isso não será fácil. No último ano do mandato de um presidente desasgatado e em plena campanha eleitoral a AFL-CIO, principal confederação de sindicatos americanos, deixou claro que não medirá esforços para barrar o acordo e o usará como munição para insistir na introdução de um vínculo formal entre direitos trabalhistas e o comércio internacional na nova rodada de negociações globais.
"A correria para admitir a China na OMC é um grave erro", afirmou o presdiente da AFL-CIO, John Sweeney. "É uma clara hipocrisia da administração Clinton de se comprometer a pôr uma face humana na economia global e, ao mesmo tempo, prostrar-se na busca de um acordo comercial com uma nação embusteira que se condecora com violações dos direitos humanos como se estas fossem medalhas de honra."
Segundo Sweeney, o acordo mina as chances de a OMC "conseguir a legitimidade internacional que falta à organização no momento em que as regras para proteger os direitos dos trabalhadores, os direitos humanos e o ambiente continuam por ser escritas".





