China é alvo de protesto às vésperas da reunião do FMI
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de abril de 2000
Por Monica Yanakiew 
Washington, 12 (AE) - Era meio-dia, quando milhares de sindicalistas, vestindo jaquetas escuras e bonés coloridos, lotaram o gramado em frente ao Congresso americano. Eles foram convocados para ocupar as ruas de Washington nos próximos dias 16 e 17, e exigir a dissolução do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird). Mas hoje aproveitaram para protestar contra o acordo comercial, que o governo dos Estados Unidos negociou com a China.
"Queremos o mesmo que os outros", insistiu Andrew Stern, um dos líderes sindicais, referindo-se à coalizão de dez mil trabalhadores, ecologistas, estudantes e religiosos, que estão se preparando para cercar as sedes do FMI e do Bird. "Os governos e as instituições internacionais tem regras para proteger os investimentos, a propriedade intelectual e as patentes. Estamos pedindo que comecem a pensar na proteção das pessoas", explicou.
Harry Wu, um chinês condenado a 19 anos de trabalhos forçados, arrancou aplausos da platéia ao contar sua experiência e criticar. A China, explicou, não pode ser tratada como parceiro comercial enquanto tiver mão-de-obra escrava e desrespeitar os direitos humanos.
O acordo em questão abrirá o mercado chinês a produtos americanos (especialmente no setor de comunicações e alta tecnologia) e será submetido ao Congresso no próximo dia 22 de maio. A sua aprovação é fundamental para a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) e representaria um triunfo para o presidente Bill Clinton, no seu último ano de mandato.
Mas a votação no Congresso ocorrerá justamente seis meses antes das eleições presidenciais de novembro. E o candidato de Clinton à sucessão - seu vice, Al Gore - precisa do apoio dos sindicatos. Por isso mesmo, os sindicalistas aproveitaram o momento em que a atenção mundial está voltada para Washington, para exercer pressão contra um acordo que prejudica os setores menos competitivos da economia americana.
Bruxas e carnaval - Ao protesto, realizado diante de dezenas de câmeras de televisão compareceram parlamentares e personagens conhecidos, como James P. Hoffa, presidente do sindicato dos condutores. Seu pai - James R. Hoffa - liderou a mesma organização na década de 50 e desapareceu misteriosamente em 1971.
A poucos quilômetros do Congresso, num bairro decadente de Washington, centenas de pessoas treinavam para enfrentar a polícia no próximo domingo. Há semanas, ocuparam um velho galpão na Rua Flórida, onde montaram o quartel-general da sua Mobilização Pela Justiça Social.
Na entrada, jovens recepcionistas exibiam seus cabelos, de todas as cores do arco-íris, e roupas da década de 60. Indicavam, aos recém-chegados, as atividades do dia. No primeiro andar, a bruxa Starhawk prepararia um grupo de seguidores nas artes mágicas de combate. Em círculo, e de mãos dadas, eles chamariam as forças da terra e os espíritos dos antepassados para ajudá-los contra o mal do milênio: a globalização.
Ao lado de Starhawk, outro grupo treinava ações de não violência. "Vocês estão liderando uma marcha e, de repente, a polícia aparece em frente bloqueando o caminho. O que farão? ", perguntou a instrutora.
No chão, seis grupos de alunos, sentados em círculo, debateram entre sí para depois responder. "Parariamos onde estávamos e enviariamos algumas pessoas em busca de um caminho alternativo", respondeu um dos porta-vozes.
Enquanto alguns organizadores davam aulas de mística e paciência, outros ensinavam aos manifestantes todos os recursos legais aos quais terão direito se forem presos pela polícia. Num canto do galpão, Ruby montava a sua máquina diabólica: "Ajuste Estrutural".
A estrutura de madeira, de três metros de altura, desfilará sobre rodas pelas ruas de Washington, devorando o povo e a natureza, e cuspindo lixo pela sua boca de dragão. É o carro-chefe de um desfile de bonecos, todos fabricados a mão. Os três maiores representarão os vilões: a OMC, o Bird e o FMI.
"O Fundo é aquele lá, com um nariz grande e pontudo, como o de Pinóquio, porque sempre mente", explicou Ruby, apontando para um gigantesco rosto rendondo e claro, com a língua esticando para fora.
"As pessoas e a natureza, destruídas pelas organizações internacionais, serão representadas por centenas de mãos e pássaros coloridos", acrescentou.
A história de Ruby terá um final feliz: outro personagem
chamado a Libertação, aparecerá para salvar o mundo. É o símbolo dos milhares de manifestantes que esperam destruir, o que foi construído ha meio-século, com a sua mobilização.


