China é a estrela do Foro Regional da Asean Do enviado especial Pepe Escobar
Cingapura, 26 (AE) - Ministros e super-ministros de todo mundo que conta convergiram para a asséptica e digitalizada Suíça da ásia - dos países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) aos Estados Unidos, do Japão à Rússia, da Coréia do Sul à União Européia. O cenário era o Foro Regional da Asean - a luxuosa coroação de uma reunião ministerial em que os dez países do sudeste da ásia discutem questões de segurança regional e de toda a ásia-Pacífico com as grandes potências. Mas a grande estrela, mais uma vez, foi a China.
Já se pode dizer, sem dúvida, que Pequim assegurou hoje (26) um de seus mais completos sucessos diplomáticos dos últimos anos. E tudo não passou de retórica. O ministro chinês das Relações Exteriores, Tang Jiaxuan, em essência, ameaçou a comunidade internacional com o mesmo mantra: não interfiram em Taiwan e não lhe forneçam qualquer ajuda para uma futura independência. Do ponto de vista de Pequim, qualquer "tentativa de forças estrangeiras de separar Taiwan da Mãe-Terra" está condenada ao fracasso. E os chineses nem mesmo precisaram excluir publicamente o uso de força para reanexar o que consideram uma "província renegada". A platéia - EUA à frente - escutou em silêncio.
O problema Taiwan monopolizou não apenas o foro regional como toda a reunião ministerial da Asean - que começou no sábado. Como se sabe, o tumulto foi provocado por uma entrevista do presidente taiwanês, Lee Teng-hui, à rádio alemã Deutsche Welle, há pouco mais de duas semanas: para Lee, agora as relações com a Mãe-Terra devem ser "de Estado para Estado". Washington, extremamente nervosa, despachou emissários para Pequim e Taipé. E a própria secretária de Estado, Madeleine Albright, veio esclarecer as coisas em Cingapura.
Albright envergou um vestido vermelho obeso de significados para a crucial reunião bilateral a portas fechadísimas com Tang - o contato de mais alto nível entre China e EUA desde o bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, em maio.
Tanto Albright quanto Tang criticaram a turbulência provocada por Lee. Tang, em sua coletiva de imprensa, chegou mesmo a qualificá-lo de "arruaceiro". Albright, mais uma vez, reafirmou em altos brados que "estamos solidamente comprometidos com a política de uma só China". Não é segredo nem para as carpas dos lagos de Taipé que a política de "uma só China" mantém uma paz artificial entre China e Taiwan há cinco décadas. É uma das mais flagrantes hipocrisias diplomáticas do fim do milênio.
O contorcionismo americano em Cingapura revelou-se digno de suas seleções de ginástica olímpica - enquanto a China manteve todo o tempo uma arrogância imperial. Tang frisou que Pequim ainda não se digna a retomar as conversações para sua entrada na Organização Mundial de Comércio (OMC) - suspensas após o bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado - e nem mesmo considera plausível a explicação oficial de Washington sobre o acidente.
Tang, em sua coletiva de imprensa - em mandarim, claro, traduzida por uma intérprete - alcançou pináculos irônicos ao comentar que "o assunto principal que afeta a segurança da ásia é a falta de confiança entre nações". Esta "falta de confiança" não poderia ser melhor ilustrada do que por meio do conflito envolvendo as Ilhas Spratly - outro tema-chave do foro. Quatro membros da Asean - Filipinas, Malásia, Vietnã e Brunei -, além da própria Taiwan, manifestam extrema desconfiança diante das intenções chinesas nas Spratly, assim como em todo o Mar do Sul da China, que Pequim considera nada menos que sua propriedade privada.
Os EUA, oficialmente, são a favor de uma ampla discussão regional em torno das Spratly. O sempre equânime chanceler da Tailândia, Surin Pitsuwan, suspirou aliviado com a adoção de um "código de conduta no Mar do Sul da China", envolvendo Pequim, Taipé e os governos de outros quatro membros da Asean. Mas tudo poderá não passar de retórica.
Cenários apocalípticos de "think tanks" americanos e asiáticos designam o Mar do Sul da China como o foco primordial de uma possível confrontação entre Pequim e Washington.
Assim como os EUA, os dez da Asean também se reafirmaram comprometidos com a política de "uma só China". Não poderia ser de outra maneira, pois o bloco, ainda enfraquecido pela crise financeira, não pode se dar ao luxo de confrontar a ira fumegante do dragão chinês.
O mais extraordinário, no entanto, foi a discrepância entre as perenes asserções chinesas a favor da paz e a realidade dos temas discutidos - as tensões no Estreito de Taiwan, no Mar do Sul da China, e provocadas pelos mísseis da Coréia do Norte.
Os chineses reiteraram-se a favor da paz entre as nações e Tang mesmo reclamou de uma persistente "mentalidade de guerra fria" - recado tangencial aos EUA. Mas suas declarações estavam salpicadas de ameaças de "guerra e conflito" - referência a Taiwan -, e mesmo ameaças diretas ao Japão, para que "não inflame tensões com a Coréia do Norte". Os japoneses têm toda razão em preocupar-se: o regime stalinista do surrealista Kim Jong-Il - ainda aliado de Pequim - soltou um míssil sobre o Japão há um ano, e, segundo especialistas em segurança, tem tecnologia para soltar outro a qualquer momento.
Embora engolida por um mar da China de retórica, a reunião ministerial e o Foro Regional no mínimo serviram para melhorar a imagem da Asean - reduzida a cinzas por causa de sua inércia face à crise econômica asiática.
Uma séria instabilidade, no entanto, vai persistir, pelo menos até o próximo encontro entre os presidentes Bill Clinton e Jiang Zemin, acertado como uma reunião bilateral à margem da próxima cúpula da Cooperação Econômica ásia-Pacífico, em setembro, na Nova Zelândia. Não há dúvida de que a atual ofensiva Pequim-Washington isolou Taipé - da qual se espera uma espécie de "retratação".
O jogo realmente sério está previsto para outubro, quando, em tese, o negociador-chefe da China, Wang Daohan, deveria visitar Taiwan para realmente começar a decidir as relações futuras entre a Mãe-Terra e a "província renegada" - no entanto, o jornal United Daily News, citando uma fonte em Pequim, publicou hoje que a visita foi cancelada pelo próprio Jiang.





