Chilenos sentem ameaça à soberania, diz filósofo
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quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 26 (AE)- Os chilenos sentem-se ameaçados na soberania nacional e desconfiam que países como Espanha e Inglaterra não estariam tão dispostos a julgar governantes de nações econômica e politicamente mais poderosas do que o Chile, apesar do desejo generalizado de que os crimes cometidos pela ditadura do ex-presidente Augusto Pinochet sejam punidos. A avaliação é do filósofo e cientista político chileno Carlos Ruiz
que participou hoje do Seminário Internacional Memória e Desaparecimento, realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Para Ruiz, que é professor da Universidade do Chile, enquanto a direita defende a soberania nacional e a esquerda afirma que a violação de direitos humanos pode ser julgada internacionalmente, na média, há um desconforto com o fato de a Espanha e a Inglaterra se sentirem aptas a julgar o regime chileno. "É certo que o ideal seria a implementação uma corte internacional de direitos humanos, e não que qualquer país possa julgar outro", defendeu ele. "Há, no Chile, a sensação de que essa ação espanhola pode valer para países como o nosso, mas talvez não para, por exemplo, a Rússia".
Ainda assim, afirmou Ruiz, o caso Pinochet e a pressão internacional provocaram internamente mudanças importantes, como a recente decisão da Suprema Corte de considerar os desaparecidos políticos como sequestrados, e, portanto, colocando os casos como passíveis de investigação - o que não seria possível pela Lei de Anistia imposta pelo regime militar. "O Exército rechaçou essa decisão e foi necessário abrir uma mesa de negociações envolvendo a Suprema Corte e entidades de direitos humanos", contou.
Outra mudança, segundo ele, está no discurso da direita que, para as eleições presidencias de dezembro, adotou uma linha de distanciamento de Pinochet. "A direita não tem entrado pura e simplesmente num discurso de justificação do que foi feito durante a ditadura, acho que para marcar uma distância de Pinochet como figura emblemática para o futuro da direita", analisou. Para os chilenos, ficou uma lição: para Ruiz, o caso foi revelador do caráter paroquial da política chilena de acordos e consenso.
"Houve, por parte do governo, uma falta de percepção, de consciência do simples fato de que há pressões internacionais
organismos de direitos humanos, universidades, intelectuais, movimentos políticos, que não olham a transição chilena com os mesmos olhos dos atores da reconstrução democrática", apontou.


