Chilenos fazem greve por presos em SP
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quinta-feira, 16 de abril de 1998
Agência Estado 
France PresseApoio dos parentesParentes da chilena Maria Emília Marchi, condenada pelo sequestro de Abílio Diniz, chegam para visitá-la na Casa de Detenção (Carandiru), ontem em São PauloEliana Urtubia, de 75 anos, estava deitada no chão do segundo andar da Comissão dos Direitos Humanos do Chile, debaixo de um cartaz, pedindo liberdade para seu filho Sergio - um dos cinco chilenos condenados a 28 anos de prisão pelo sequestro do empresário Abílio Diniz, em 1989. Ontem ela começou sua greve de fome em Santiago.
Não vou comer, em solidariedade a meu filho, que também está em greve de fome, até que o presidente Fernando Henrique Cardoso me receba, quando chegar aqui, disse. Quero que pare de esconder a cabeça na terra como um avestruz e se lembre que um dia também foi um jovem exiliado político, e os chilenos o acolheram de braços abertos. Eliana participou de uma manifestação na frente da Embaixada do Brasil, ontem à tarde, organizada por grupos políticos de esquerda, organizações de defesa dos direitos humanos e parentes dos presos chilenos.
O presidente brasileiro chega hoje ao Chile para participar da II Cúpula das Américas, com outros 33 chefes de Estado e de governo, de todos os países do continente, menos Cuba.(v. página 10)
O evento principal também discutirá direitos humanos e melhoria da Justiça. E é justamente da falta de uma justiça igualitária que se queixam os parentes dos presos e, em menor medida, o governo chileno. Achamos que 28 anos é uma pena excessivamente longa - maior do que aquela aplicada a brasileiros que cometeram crimes como o assassinato do seringueiro Chico Mendes, disse Maria Acevedo, uma professora de culinária de 72 anos, mãe de Ulisses Gallardo.
Confinados há quase nove anos, os dez sequestradores de Abílio Diniz - cinco chilenos, dois argentinos, dois canadenses e um brasileiro - voltaram a ocupar as manchetes dos jornais quando iniciaram a greve de fome. Eles participaram da Operação Carmelo, nome dado à investida contra o empresário, para tentar arrecadar US$ 40 milhões. O dinheiro seria usado para financiar a guerrilha salvadorenha.
No Chile, o tema ganhou importância depois que Fernando Henrique sancionou um tratado de transferência de presos, há muitos anos reivindicado pelo Canadá, para repatriar Christine Lamont e David Spencer. Nesse dia, em Santiago, foi noticiado que todos os estrangeiros seriam imediatamente extraditados. O mal-entendido levou o chanceler chileno, José Miguel Insulza, a dar explicações públicas. Ele disse que seu governo não tem críticas ao julgamento dos cinco chilenos, nem os considera presos políticos, porque cometeram um crime comum. Mas Insulza também disse que considerava a pena de 28 anos excessiva.
O governo brasileiro não foi o único alvo de críticas. Foi com amargura que Eliana falou dos líderes do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR), que planejaram a Operação Carmelo: Roberto Moreno, Manuel Gaona e Patrício Rivas. Os três abandonaram a agrupação de esquerda nesta década e hoje os dois primeiros trabalham no Ministério do Interior, enquanto o terceiro é professor universitário.
Segundo Eliana, os três ex-líderes pagaram os advogados dos prisioneiros chilenos até 1992, quando deixaram o MIR. Mas Eliana disse que generoso mesmo foi Abílio Diniz, o sequestrado, que teria contribuído financeiramente para a defesa de seus sequestradores. Agora pedimos que Abílio Diniz tenha piedade de nós e ajude a liberar nosso parentes, disse Marta. Ele tem filhos e deve saber que ninguém prevê que voltas o mundo dará.
Diplomatas do Canadá que visitam regularmente o casal Christine Lamont e David Spencer, ainda não conseguiram convencê-los a suspender a greve de fome. Christine e Spencer alegam que o protesto é em solidariedade aos demais presos que participaram do crime. Ontem, o acordo de transferência dos presos, assinado terça-feira pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, foi ratificado pelo governo canadense.
Porém, a recusa de Christine e Spencer em aceitar o acordo entre os governos do Brasil e do Canadá está causando surpresa entre a própria população canadense. Jornais daquele país que, durante os últimos anos, vinham fazendo campanha pela libertação do casal, estão se voltando contra os dois. O Toronto Star, um dos mais influentes diários canadenses, chegou a usar uma charge mostrando David e Christine virando as costas para o tratado. Eles são radicalmente contra esta greve de fome feita pelo casal, afirma uma fonte da embaixada canadense.


